novembro 30, 2003

Diversão normanda

Criar sua própria tapeçaria de Bayeux cai bem para o momento narrar novas mitologias reciclando métodos de antanho.

novembro 29, 2003

Pressing for nookay

Aí tu bota pressão.
Daniel Galera pede mais "nookie" aos presentes. Eu, aprovando, observo.
(Debate
Novos Caminhos: Curitiba, 19.11.03)

Os bons rapazes

Das coisas que me deixam sorrindo ao acordar: o Portal Literal acaba de publicar entrevistas com meus garotos Daniel Galera e Joca Reiners Terron. E ah, tem mais Joca na Capitu e na Folha de São Paulo.

novembro 27, 2003

Café nunca mais

Ronaldo, Rei da Balada Deus é um tédio. Os trezentos e sessenta e cinco pleromas não passam de transtornos quase acidentais no sono de uma divindade absoluta perdida em Si Mesma, encantada em deleite indelével por Sua própria majestade. O infinito Deus recurva-Se sobre Si Mesmo, em eterno êxtase, e não Tem olhos nem ouvidos nem pensamentos para mais nada que não Sua excelsa glória imaterial. (...) Todos os mundos possíveis não passam de ficção em estado bruto, escrita pelo mesmo motivo por qual se escalam montanhas ou se atritam mucosas.

Em riba um pedaço perdido e absurdamente descontextualizado do meu novo livro, uma narrativa longa que, com alguma sorte e paciência, publico no próximo ano. Os críticos dirão que seu tema central é a criação movida apenas e somente pelo prazer da criação. Eu não direi que versa sobre um dedo de negro com uma unha que, ao descobrir-se um dedo negro com unha, tenta renunciar a qualquer privilégio concedido a minorias mas é frustrado em seu intento por uma entidade que vive dentro d'Uma Máquina, mas poderia dizer (não o farei) que é sobre totinhas.

Grudo o fragmento para sofismar alguma coisa sobre a importância da inutilidade, à guisa de remédio para a insônia. Chama-se de útil aquilo ou alguém que serve para alguma coisa definida, que traz vantagens específicas, que cumpre alguma função para a qual foi criado, que é produtivo ou colabora para um aumento de produtividade. Algo assim. Não me estendo para não me confundirem com um roteiro do Jorge Furtado (caso a Leandra Leal venha junto, podem me confundir à vontade, e agradeço).

Na vida, assim como na literatura, na culinária ou na exploração de pólos, a coisa mais fácil de encontrar são defensores encarniçados do hedonismo (entreter-se à farta, de modo raso e insaciável) e da constipação (levar tudo muito a sério em três vias carbonadas, e é melhor ter uma ideologia por trás). Defendendo seus pontos de vista com ações, argumentos ou com um double hit combo, não importa, eles estão por todos os cantos. Difícil mesmo é ter a alegria de encontrar-se com os apóstolos da inutilidade, esses pândegos.

Uma literatura que, não, não, estou falando demais de literatura, vou perder leitores, que horror. Sexo, então. Peço perdão aos ultramontanos e lembro aos demais que sexo bom é sexo inútil, desprovido até o último gameta de seus fins reprodutivos. Uma relação sexual que não sirva para os fins constipados da reprodução ou para a busca hedonista por um suposto prazer é totalmente desnecessária, e é nisso que reside o seu encanto (assim como na literatura que, certo, certo, eu paro). Você entende, não entende? Eu sei que entende. É inútil, é desnecessário, não serve a fim algum; logo, é a essência do que o humano tem de melhor, por ser artificial e transcender a abominação chamada natureza que, como todos sabemos, é Má e, convenhamos, um tanto vulgar.

A literatura, o sexo, a culinária, a vida e a exploração de pólos ficam ainda mais inúteis, artificiais e sublimes com a adição de camadas infinitamente superpostas de referências - que, por apontarem para criações e percepções humanas e serem pós-naturais, são Boas. É nesse campo que a desutilidade brilha com mais gosto. Se é bom quando um leitor entende algo que você escondeu entre uma linha e outra - pisca, pisca - é melhor ainda quando uma senhorita coberta de toda a inutilidade do mundo entende todas as suas desnecessárias piadas de alcova e ainda colabora para ampliar o repertório. Cravar a bandeirola no exato centro, sem mais ninguém para assistir. Happy happy, joy joy.

Mas a vida é difícil, como é difícil. Ninguém me entende, tenho todos os motivos para me rebelar, virar romântico, criar um blog. Graças à minha boa educação, resisto. Sempre que eu digo com toda a razão do mundo (como sempre) que Hitler era quase um comunista as pessoas ainda fazem caretas. Grandes rivalidades só são possíveis entre semelhantes, tento argumentar, mas me enchem de croques com o olhar. Me sinto um mujique ébrio, quase passo a dar cabeçadas na parede, mas como ainda prezo a compostura (que é artificial, desnecessária, logo traz a essência do melhor do humano, e assim transcende o horror da natureza etc.) apenas baixo os olhos por um segundo, repito mentalmente optimism is true moral courage, sorrio com o peso de meus óculos e passo a discorrer sobre a primeira edição de Advanced Dungeons & Dragons ou meus tempos de escoteiro.

(Digitar a esmo, sem raciocínio prévio, é perfeitamente desútil. Continuo sem sono, mas ganhei um sorriso besta. Aproveito a oportunidade para mandar uma banana póstuma para o sujeito constipado que achou que colocar um losango amarelo em uma bandeira verde era uma idéia formidável.)

novembro 25, 2003

Outro d'O Farol

Como ninguém ainda me demonstrou o contrário, continuo achando Joca Reiners Terron o melhor ficcionista da minha geração. Dono de uma imaginação de exuberância tamanha que chega a ser frustrante para seus colegas de ofício, Terron ainda consegue temperá-la com ousadia, domínio de linguagem e uma incrível versatilidade. É um sujeito capaz de emplacar (no ainda insuperável romance Não há nada lá) um escrete de personagens que inclui Lautrèamont, a pastorinha Lúcia (de Fátima), Fernando Pessoa, Baudelaire, Pio XI, Billy the Kid (ou melhor, Gui-o-Guri), William Burroughs, Jimi Hendrix, Aleister Crowley e Rimbaud, a histérica hebefrênica, perdidos em um enredo quase intangível e obeso de referências, para em seguida lançar um fabulário em fragmentos da coleção de horrores que vicejam em São Paulo (Hotel Hell, que tive a honra de editar). Quando leio, sinto inveja. Esse é sempre o melhor indicativo de que estamos na presença de um Grande. Nem cheguei a comentar os livros de poesia ou a denunciá-lo como um dos principais designers de livros do país, e muito menos revelar que ele já leu todos os livros do mundo. Não há remédio, é preciso capitular: Joca Reiners Terron, o cavalheiro calvo do sorriso de coringa, é O Farol.

Pois o tal de Joca está lançando mais um livro, desta vez pela editora Planeta. Não há nada lá foi publicado por sua própria editora, a Ciência do Acidente, inspiradora da Livros do Mal que lançou Hotel Hell. Agora é a vez de Curva de rio sujo, seu primeiro livro de contos. O convescote dar-se-á nesta quarta-feira, dia 26 de novembro, às 18h30, na livraria Cultura (Av. Paulista, 2073 Loja 151: Conjunto Nacional). Autografar é uma chatice, um provável castigo do demiurgo para nos punir pelo prazer da criação. Apareçam, paulistanos, e paguem uns drinques para o Joquinha. Ele merece uma noite leve.

novembro 24, 2003

¡Revolución!

Chekhov, Anton

(A série Che é uma idéia original de Eduardo Fernandes)

novembro 23, 2003

Mão alheia

Desta vez, o egosurf quinzenal trouxe um roteiro adaptado do meu conto "Proibida a entrada de pessoas estranhas". O primeiro terço ficou interessante. Dentre as inovações, desgostei especialmente da fala do idoso (Eles dizem que farão a grande revelação, etc). No final, seria importante que a câmera seguisse o gerente para dentro do cubículo das vassouras, é importante demais isso do cubículo das vassouras, e só então o gás, ahn, certo, certo, passou.

Waaaazzzuup

Black people love us! Se você não entender a piada, por favor, mate-se imediatamente. Obrigado.

novembro 22, 2003

A planura, a planura

Liev es muerto, viva Liev Durante a última Feira do Livro de Porto Alegre, o jornal Zero Hora promoveu no caderno especial dedicado ao evento uma brincadeira chamada Ficções, em que escritores locais faziam encomendas a outros. As vítimas precisavam escrever o início do livro fictício em até dez linhas. Eu e Galera aceitamos o desafio de nosso professor Luiz Antonio de Assis Brasil, e o resultado está abaixo. Reza a lenda que o jornal recebeu ligações de pessoas interessadas em comprar o tal livro inexistente. Hm, é de se pensar. De resto, quanta nostalgia ao vislumbrar essa belíssima capa e dar de encontro com Liev, meu falecido & mui saudoso bigode.


LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL, autor de A Margem Imóvel do Rio, propõe: Minha proposta é para um início a ser feito a quatro mãos pelos Danieis Galera e Pellizzari. Gostaria de ler um texto deles que fosse o início de um romance tri histórico que se passe no tempo da Revolução Farroupilha.

DANIEL GALERA, autor de Até o Dia em que o Cão Morreu, e DANIEL PELLIZZARI, autor de Ovelhas que Voam se Perdem no Céu, topam o desafio:

A Cocheira dos Sete Potros

"Dos motivos possíveis para a deflagração de uma guerra, só o charque merece consideração. Quando o General assegurou-nos, entre baforadas, que estávamos ali apenas e somente pelo charque, tudo ficou cristalino. Territórios, riquezas, belas fêmeas, todo o resto não passa de tontaria quando medido contra o valor transcendente da carne salgada com nosso suor. Somos vegetarianos, andamos sobre quatro patas, mas não somos ingênuos. Até um burrico, criatura morosa e renitente, reconheceria que com charque não se brinca. Só os imperiais não entendem, os simplórios. Se pudéssemos demonstrar que... A chegada do peão, voltando do barranco, interrompe minhas ruminâncias. Sinto o peso de seus fundilhos em meu dorso. Indelével em minha mente a lembrança do charque. Que venha a guerra, que desçam os baianos, que vingue a carne. De cá para diante seguiremos juntos. Os cavalos, os rebeldes, o charque, eternamente a singrar a planura do pampa - a planura, a planura."

Madalena Redux

Atrasou, mas isso também acontece. Acaba de sair a segunda edição revista d'O livro das cousas que acontecem, meu segundo filhote. Aos colecionadores, admiradores incondicionais e demais completistas, informo que alguns contos sofreram leves modificações e que, uau, o vermelho da capa tem menos negro na sua composição. Quem não tem e quer, quem tem e quer mais, quem quer presentear: o livro está disponível aqui (últimos exemplares da primeira edição, creio) pelo preço antigo de R$19,00. Pedindo diretamente da editora, o preço fica em módicos R$20,00, mas isso já inclui despesas de postagem e garante o recebimento de um exemplar da segunda edição. Para continuar a comemoração e de modo a alegrar a torcida, posto aqui um dos contos do livro. Se você já conhece, preste atenção no último parágrafo.

ANA
Daniel Pellizzari

Certa noite a contorcionista do Circo Garcia não apareceu para o espetáculo. Ficou trancada em seu trêiler, ouvindo vozes e passando muito mal, com pontadas na cabeça e tossindo sem parar. Continuou assim e com o nariz escorrendo durante os dias seguintes, preocupando seu chefe Wally Garcia, o mágico da cartola, e seu marido Los Angeles dos Anjos, o atirador de facas. Quando completou duas semanas longe do picadeiro, a contorcionista do Circo Garcia espirrou com muita força e sentiu algo escapando por sua narina esquerda. Quando abriu os olhos (lembramos aqui que é impossível espirrar de olhos abertos) deu de cara com um pequeno homúnculo de aproximadamente quinze centímetros de altura, coberto de muco, que lhe sorria sentado no chão. No mesmo instante cessaram as vozes, as pontadas, a tosse, a coriza e o furor uterino do qual ainda não tínhamos falado nem vamos falar, pois não tem o menor interesse para a vida de Eduardo, que é como o homúnculo foi batizado.

Para alguém que não nasceu, surgiu, Eduardo teve uma infância atribulada, apesar de já ter nascido adulto. Rumores sobre a história milagrosa de seu nascimento acompanhavam a trupe do Circo Garcia por onde quer que andassem, o que despertou o comichão da ganância em Wally Garcia e sua cartola. Eduardo, o filho da contorcionista, começou a ser exposto na tendinha de aberrações que costumava ser erguida ao lado do circo. Passava dias e noites sendo observado, o que muito lhe incomodava, principalmente quando alguém lhe atirava pipocas doces. Após algumas temporadas cansou deste tratamento e resolveu fugir. Vestiu uma espiga de milho com suas pequenas roupas, feitas com carinho por Carolina, a Mulher Barbada, e escapuliu por baixo da lona. Meia década depois aconteceu um incêndio no Circo Garcia e a contorcionista foi uma das vítimas fatais, mas isso não faz o mínimo sentido nem tem relação com Eduardo, que a esta altura estava vivendo contra a sua vontade em um laboratório muito asséptico.

O Dr. Krleza possuía uma interessante teoria sobre a loucura, baseada em sua convicção de que o ar estava cheio não apenas de bacilos e toda uma cornucópia de animálculos, mas também de homúnculos que poderiam ser aspirados por acidente e em seguida se hospedarem dentro do crânio de pessoas até então muito normais, compartilhando seus pensamentos e assim causando delírios, vocações poéticas e outras afecções da mente. Mesmo não sendo exatamente microscópico, Eduardo era a prova empírica de que necessitava para sedimentar o fato da existência de misteriosos homúnculos. Mas, infelicidade profunda, eles nunca se conheceram e nem ao menos ouviram falar um do outro, provavelmente pelo fato do Dr. Krleza viver na Croácia e Eduardo no Brasil, mais precisamente em uma cidade que não tem relevância alguma para esta narrativa. O que nos importa é que depois de vagar pelo mundo algum tempo após sua fuga, Eduardo concluiu que as ruas eram perigosas demais para alguém com menos de três palmos de altura e se deixou ser adotado por uma patologista solteirona viciada em trabalho e em óxido nitroso. Sempre de branco, batom vermelho e unhas cortadas rente, ela morava em um apartamento ao lado de seu laboratório de análises clínicas e passava grande parte do seu dia ocupada com o microscópio, rindo sem parar e utilizando os então dezoito centímetros de nosso homúnculo em certa atividade lúbrica que não temos competência, desenvoltura ou desinibição para descrever em detalhes.

Tal período – que umidade! que odor! que pachorra! – exerceu grande influência no mau humor apresentado por Eduardo ao completar vinte centímetros de altura, algumas semanas depois de abandonar suas funções involuntárias no laboratório. Morava então nas dependências de serviço de um shopping center, no qual inclusive arranjara um emprego como duende de Papai Noel. As crianças e seus pais imaginavam que ele era uma espécie de pequeno autômato muito realista, e enchiam o recinto com arrulhos de admiração. Nos intervalos, longe da clientela, o Papai Noel bebia um pouco de rum de sua garrafinha metálica e compartilhava com Eduardo toda a sua estranha alegria de passar o dia com criancinhas sentadas em seu colo. Eduardo permanecia entediado em suas tarefas de duende, que lembravam demais suas temporadas na tenda de aberrações, até que no início de uma noite que nada tinha de especial, uma mulher que estava de mãos dadas com seu filho na fila do Papai Noel deu um espirro muito forte, de boca aberta, lançando muco e perdigotos para todos os lados. Juntamente com estes, arremessou também uma mulherzinha sorridente de dez centímetros aos pés do Papai Noel. Ao vê-la, coberta pela gosma brilhante, Eduardo foi tomado de tamanha alegria que começou a inchar. Inchou sem parar, como um baiacu, até começar a flutuar pelo shopping, para espanto dos freqüentadores, que desviaram a atenção da mulherzinha recém-surgida. A certa altura a felicidade de Eduardo chegou a um ponto em que seu pequeno corpo, tendo atingido seus limites de expansão, explodiu sem ruído e seus fragmentos pulverizados caíram devagar, como neve rala, sobre a decoração natalina do shopping.

Nas linhas acima lembramos de Eduardo, mas na verdade gostaríamos de contar a história de Ana, nascida normalmente através de uma vagina após nove meses de gestação tranqüila, um bebê roliço e cacheado que fraturou o braço aos nove anos mas se recuperou bem e nunca aprendeu a nadar e foi uma jovem feliz e cresceu até quase um metro e sessenta e cinco e casou com o belo e bom Gabriel que nunca lhe traiu e com quem teve três filhos obedientes que se mudaram para o exterior e não lhe deram netos e morreu velhinha ao final de uma tarde de primavera tirando uma soneca depois de tomar chá com biscoitos de gengibre lendo um almanaque de variedades. Mas ela nasceu morta, coitadinha, e graças a isso nada temos o que contar sobre ela.

(De "O livro das cousas que acontecem", p. 33-37)

Beauté et decadance

Japoneses, há séculos e séculos fazendo o melhor para o resto de nós.

Epílogo desútil

Mesmo com tudo que disse abaixo, ainda acredito que tema e/ou enredo são secundários em literatura ou qualquer arte narrativa. Nunca condenaria uma obra simplesmente por ser realista ou por lidar com a sarjeta. Quando produzidas pelas mãos de mestres (e eles existem), são tão sublimes quanto quaisquer outras, e podem ter valor até mesmo quando assinadas por sujeitos não mais que competentes. O que me incomoda, acima de tudo, é a previsibilidade, a repetição que leva à monotonia.

Narrativa é, antes de mais nada, linguagem (as in modo de narrar, estilo; não confundir com descalabros semiológicos). Uma história aparentemente prosaica, se narrada com gênio, torna-se formidável. Um enredo intrincado e imaginativo perde todo seu apelo se não vier servido em uma forma interessante. Lembrem sempre que o tio Shakespeare usou enredos requentados na maioria (ou todas? não lembro, confesso) de suas peças. Não era exatamente um sujeito original, mas perdurou porque contou melhor. Aprendamos.

Apêndice sem utilidade alguma

Mas um verdadeiro novo caminho para a literatura no Brasil seria ter leitores. Sim, admito que é um projeto pretensioso, mas seria interessante. O problema é que vivemos em um país que, além de ter pouco mais da metade da sua população sambando bonito nas praias do analfabetismo funcional, sofre de uma estranha repulsa congênita pelo conhecimento. Isso afeta não apenas a ficção, mas qualquer tipo de leitura ou atividade instrutiva. No Brasil Suado, esse reino da mesa de bar que tanto valoriza a malandragem, a malemolência e a escola da vida, o sujeito precisa ter vergonha de ser instruído. É imperioso que qualquer um que tenha uma mínima intimidade com séculos de história e cultura humanas mantenha-se calado sobre qualquer assunto que vá além do prosaico. É lei tácita que tais sujeitos abjetos devam afetar uma modéstia acanhada, sob pena de receberem comentários do tipo "está querendo se mostrar", "olha só como é arrogante", "se acha especial" ou, claro, o rótulo predileto dos totalitaristas da insciência: pseudo-intelectual.

Se, como é comum, um indivíduo armazena na memória todos os resultados, escretes e melhores momentos dos Campeonatos Brasileiros de futebol desde 1970, e ainda traz de bônus fantásticos relatos sobre todas as Copas do Mundo, uau, o cara adora futebol. Ninguém o chama de pseudo-comentarista-de-mesa-redonda. Cuida do corpo, está sempre disposto a usar aquela sunguinha maneira, freqüenta academias de ginástica, joga uma bolinha no fim-de-semana: nunca ouvi ser chamado de pseudo-atleta. Mas hah, faça referência a dois autores pertinentes a algum assunto que esteja sendo discutido e pronto, virou pseudo-intelectual. Não estou falando de códigos maçônicos ou de filigranas de equações diferenciais, mas de simples fatos concernentes a qualquer homo sapiens que ainda respire. Não adianta: pseudo-intelectual. O mais patético é que quase sempre as vítimas desse preconceito (ainda não formaram uma ONG nem pleiteiam feriado, ao que eu saiba) não têm a mínima intenção de serem intelectuais. Seus algozes não reconheceriam um intelectual nem que este se pusesse a enfiar a obra completa de Bakhtin por suas goelas abaixo.

O resultado dessa sandice inexplicável (alguém tem idéia sobre como isso começou?) é a penúria mental em que vive uma boa parte dos membros da classe média e alta do Brasilzão Sol & Mar. Ao contrário do que se pode dizer em defesa, ainda que discutível, dos desfavorecidos, estes têm tempo e dinheiro de sobra para obterem alguma instrução, aprenderem mais sobre a trajetória humana, refinarem sua percepção de mundo. Deveria ser um prazer, mas é uma obrigação da qual se foge do jardim de infância até a caixa de apodrecer. Gente assim não só não tem a mínima capacidade de entender ficção, mas também não presta para entender o mundo que os rodeia. E, vejam só, são a maioria. E porque querem. Porque ser pseudo-intelectual é feio. Porque o simples ato de saber e dividir o que se sabe é crime de arrogância. Porque todas as pessoas são iguais.

E é num país assim que muitos abnegados continuam a escrever, traduzir, editar. Que alguém os canonize, pois diariamente seguem para o martírio com um sorriso extático no rosto, certos da retidão de seu caminho. Amen.

Mais inutilia

O que seriam, afinal, os tais novos caminhos para a literatura? Estamos falando de forma, de conteúdo, de elementos extra-literários? Acima de tudo, a literatura precisa mesmo buscar novos caminhos de forma tão consciente? Alguém ainda se importa? Como existem pessoas que não gostam de comer? Existiria jornal diário mais engraçado que O Sul? Cheguei em Curitiba, o templo da assepsia urbana aplicada, com esse tipo de corcundas na cachola. Costumo ser convidado com certa freqüência a debates como este último, onde o mote é invariavelmente algo que contém o adjetivo novo. (Pausa para um suspiro).

De início posso dizer que cada escritor, ao dar início à sua obra, abre um novo caminho. Todo autor que surge, se tiver um tantico de decência, traz consigo um novo universo a desbravar, um jambalaya de linguagem, imaginação, influências, projeto de obra, porco, lagostas, a coisa toda. É preciso pensar em novos caminhos além deste, o óbvio irreparável? Não sei, mas já que precisei falar sobre o assunto aproveito o brógue para dividir alguns pontos com quem não pôde estar no debate.

Vivemos em tempos de certo modo complicados para os dez filadaputa que lê livro, é certo. Com a ascensão abrutalhada e fascinante da narrativa audiovisual no último século, a literatura perdeu evidência e saiu do posto privilegiado em que sempre estivera, de forma narrativa primária. O que para muitos escritores pode parecer terrível, tenebroso - como de fato o é, mas não completamente - a mim parece um convite à maior liberdade, ao completo abandono à imaginação. Ninguém está olhando. Ninguém se importa. Ninguém está lendo. Que maravilha.

Estamos livres, os escritores, para trotar levantando poeira pelos tais novos caminhos. Um dos novos caminhos mais interessantes, pelo que eu julgo, e costumo julgar bem, seria justamente o velho caminho. Ei, não estou falando do realismo (seja naturalista, psicologista ou, valha-me Abraxas, sociológico). Depois de dois séculos de domínio, este me parece um tanto exausto, tendo como única salvação a narrativa fragmentada. O que eu realmente gostaria ver de volta é a imaginação, a alegoria, a ficção pura e exuberante. Até algum maldito francês inventar que o que realmente interessa são as picuinhas cotidianas do burguês (para mais tarde, degringolarmos nas picuinhas cotidianas da rafaméia, tão poética que é, tão real, etc) a literatura se pautava pela imaginação, pela criação desenfreada, pela denúncia da criatividade do autor. Pense no Gênesis. Na Ilíada. As bacantes, as Metamorfoses. O Asno de Ouro. A Divina Comédia, Gargantua e Pantagruel, As Viagens de Gulliver, Tales of the Grotesque and Arabesque. Maldoror, as Alices. Certo, vocês entenderam.

Com as ascensão do romance realista, o que eu enxergo como a principal qualidade da literatura tornou-se artigo de segunda mão, limitado ou a guetos vanguardistas (surrealismo, anyone?) ou à recém-criada literatura de gênero, que reúne narrativas de horror, fantasia, policiais e ficção científica (o pior rótulo jamais criado para qualquer coisa que tenha alguma vez pensado em existir). Sim, existiram Gógol e Kafka, Cortázar e Bulgakov, Borges e Kharms, e assim por diante. Foram insurreições bem-sucedidas contra o status quo das narrativas interessantíssimos sobre a vida íntima de quarentonas, mas sua influência mal chegou às letras brasileiras. Aqui, mesmo depois do brilhantismo de um satirista como Machado de Assis, não nos restou mais que o romance de 30, o sociologismo regionalista, as narrativas naturalistas sobre uma suposta realidade dos desfavorecidos, que seria A Realidade. E quem se importa com a, ahn, Verdadeira Realidade? Eu me importo com o fato do humor, da sátira, da paródia, da ironia, ainda serem consideradas subliteratura (eu te odeio, Aristóteles), enquanto qualquer narrativa que mostre quão dura pode ser a vida para quem não tem dinheiro (e, tese mui querida pelos brasileiros, quão sábia e superior pode ser a ignorância) ou as agruras de relacionamentos e da gente que sofre por amor (amor, aqui, geralmente aparecendo como não mais que monomania, puro transtorno de atenção) seja considerada parâmetro de boa literatura.

Não é o caso de abandonar de vez o realismo em todas as suas facetas. Ele ainda pode render - e rende - trabalhos excelentes, fazendo com que a convivência, mais que possível, seja desejável. Um escritor sabe quando e como deve usar tal e tal tratamento para seu trabalho. Em arte, como em todo o resto, a destruição e as posturas niilistas não passam de totalitarismo. Não precisamos de ressentimento, precisamos de novas mitologias. Literatura não deveria ser caixa de recalques, mas janela para o que o humano tem de melhor. Não creio que precisamos de mais denúncia social estéril, mas sim da transcendência que denuncia a mediocridade. A melhor maneira de fazê-lo, a meu ver, é integrando todos os elementos possíveis em uma nova literatura de imaginação, da mesma forma que as tão desprezadas histórias em quadrinhos. Ninguém está olhando, ninguém se importa, podemos fazer isso sem grande alarde até ser tarde demais para que os acadêmicos esperneiem.

O adorável é dar-se conta que, finalmente, o processo já começou. A divina paródia, de Álvaro Cardoso Gomes. Não há nada lá e Hotel Hell, de Joca Reiners Terron. A coisa não-Deus, de Alexandre Soares Silva. Húmus, de Paulo Bullar. Deixe o quarto como está, de Amilcar Bettega Barbosa. Naquela época tínhamos um gato e Subsolo infinito, de Nelson de Oliveira. Não são os únicos. Autores diversos, enfoques diferentes, tendo em comum em seu trabalho a primazia da imaginação sobre a ditadura do mesquinho. Novos caminhos, afinal.

Hora do almoço

Tomai e comeiNo meu Paraíso (ou na minha Cocanha, escolha seu lado), como no Tir na nÓg céltico, os porcos correrão pelos campos já assados, com facas espetadas no lombo. Poderia escolher meus companheiros de idílio dentre mortos e vivos, e trocá-los ao sabor de minha inconstância. Em cada canto, roletes fumegantes com bois inteiros, talvez recheados com ovelhas. Seriam operados por uma interminável equipe de serviçais, todos eles anões com trajes do século XIII. Teria uma só mulher para o que me restasse de eternidade. O afresco do horizonte seria continuamente repintado por um exército de Giottos. De cada torneira onipresente jorraria, muito gelado, o bálsamo borbulhante do Dr. Pemberton. Nenhum bêbado à vista. Livros, muitos livros, nanocomputadores intracranianos e um oceano feito de farofa.

Observação inútil

Uma das obrigações mínimas de qualquer escritor com um mínimo de vergonha na cara é ter um domínio técnico razoável, que lhe permita fazer o que quiser, quando quiser, do modo mais adequado. Prosa espontânea e sincera? Escritores são, acima de qualquer outra coisa, mentirosos profissionais. Compassivos, sim. Altruístas, pode ser. Visionários, vá lá. Mas sempre mentirosos, sempre maquiavélicos, sempre com domínio de seu texto. A sinceridade pode ficar para panfletos ou, caso o sujeito tenha a inclinação, para o confessionário (religioso ou laico, excluindo-se das possibilidades as mesas de bar). Já a espontaneidade não consigo imaginar para quê serviria, seja na literatura ou fora dela. Constranger as testemunhas, talvez.

Mesmo tendo isso em mente, admito ser perigoso estabelecer regras rígidas sobre o que é ou não literatura, e sobre como um autor deve ou não se portar ao fazer seu trabalho. Reconhecer literatura não é tarefa difícil, e pouco tem a ver com critérios objetivos ou impressionistas. Basta ter lido algumas centenas, talvez milhares, de obras de ficção. É uma espécie adestrada de intuição. Fica muito fácil perceber o que é literatura e o que é simulacro, sem ter que recorrer a nenhum teórico para fundamentar o julgamento. Você pode não gostar de uma narrativa, pode até abominá-la, mas será forçado a admitir que aquilo é, sim, literatura.

Não que alguém se importe com isso, é claro, mas o dever do ficcionista é exercer o inútil e me encanta ser obediente aos ditames do ofício.

novembro 18, 2003

Manta de charque

Amanhã e depois, quarta e quinta-feira, os editores da Livros do Mal estarão em Curitiba, loucos para comer pirojki (e, se fosse possível descer até Morretes, barreado). Também aceitamos convites para agradáveis momentos de dissipação e potlatch (este, desde que dos outros).

Onde nos encontrar? Fácil. Na quarta, dia 19/11, às sete da noite, estaremos nas Livrarias Curitiba Megastore do Park Shopping Barigüi (Rua Prof. Viriato Parigot de Souza, 600, Loja T17 - Fone 41-330-5000). Barigüi não é onde tem um parque? Eu lembro de um parque com esse nome quando eu morava em Curitiba. Mas isso foi nos anos 70, quando eu desisti de soltar pipa, digressiono.

O que estaremos fazendo lá? Bueno, participaremos de um dos Encontros Literários mediado pelo notório RPGista Ricardo Sabbag. O debate versará sobre os novos caminhos na literatura. Hmm. Novos caminhos. Hmmmm. Além de mim, estarão presentes meu comparsa Daniel Galera, o mestre Valêncio Concorrente Xavier e os batutas locais Paulo Sandrini - prosador - e Fernando Koproski - poeta.

No dia seguinte, no mesmo local e mesmo horário, estaremos na platéia fazendo olas enquanto o ubíqüo Rogério Pereira media o debate sobre crítica literária. Presentes na mesa meu querido coleguinha Fabrício Carpinejar, o garotão Paulo Polzonoff Jr. (a.k.a. The Real Mirisola) e o veterano José Castello.

Se fosse em Porto Alegre, lotava. Apareçam, curitibanos. Vocês têm uma má reputação a desfazer.

novembro 17, 2003

Ao Dr. Pemberton, sempre conosco

O Bom DoutorPara acompanhar a comida foi servido um líquido negro que ardia na garganta, mas Delamarche e Robinson gostavam: elevavam muitas vezes os copos à saúde de diferentes projetos, brindando enquanto mantinham-nos por alguns instantes encostados ao alto. - Franz Kafka, América

Bestiário da compaixão repugnante

Um. Aqueles que dedicam-se com todo o afinco que carregam nas vísceras a insistir que o muro que os cerca não é feito de tijolos, mas de algodão. Cabeceiam o muro dia e noite, parando apenas para anunciar aos passantes que, é bom que saibam, é definitivamente necessário que compreendam e aceitem, o muro é feito de algodão. E quando um desses passantes, movido pela perplexidade do acaso, resolve bater os nós dos dedos no muro e dizer Espia, são tijolos, sobrevém uma birra de jardim de infância. Os heróis do obtuso (apud MALABARES, Adenovir in "Passou, nenê, passou") macaqueiam indignação, o próprio sangue ainda esperneando-lhes o cabelo e a face, e urram É algodão, é algodão! para quem ainda tiver complacência de ouvir. Por fim afetam mágoa e acusam o passante de canalha, hipócrita, velhaco, para depois arremeterem de crânio contra o muro. Tump!, e o passante já dobrou a esquina, antes do próximo ai.

Ô abre-alas

A sífilis é natural.Ipiaiô. Quem digita é Daniel Pellizzari, expoente do gnosticismo festivo, 2½ dozen summers against the world. Ao contrário daquele que me precedeu como novo membro deste escrete, anunciado pelos profetas e pela própria voz como representante das forças da natureza, não deposito confiança em nada que não tenha sido criado por engenho humano. Nem mesmo a existência da Bauhaus, dos automóveis ou dos bonés sacode minha convicção. Tudo que é natural - seja concreto ou abstrato - é, por si, abjeto, e só pode tornar-se bom e belo sob a perspectiva de intervenção humana. Dedicarei este espaço a um elogio do artifício, à opção pelo não-suicídio e, claro, ao gênio do Dr. Pemberton, que há 117 anos teve a bondade de inventar meu tônico predileto.

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)