dezembro 30, 2003

Chomsky & Zinn comentam LOTR

And observe the map device here — how the map is itself completely Gondor-centric. Rohan and Gondor are treated as though they are the literal center of Middle Earth. Obviously this is because they have men living there. What of places such as Anfalas and Forlindon or Near Harad? One never really hears anything about places like that. And this so-called map casually reveals other places — the Lost Realm, the Northern Waste (lost to whom? wasted how? I ask) — but tells us nothing about them. It is as though the people who live in these places are despicable, and unworthy of mention. Who is producing this tale? What is their agenda? What are their interests and how are those interests being served by this portrayal? Questions we need to ask repeatedly.

Leiam, leiam. [via Cisco, também autor de um belo post sobre um dos temas centrais da trilogia]

dezembro 27, 2003

São os votos do Sr. Abraxas

Al tempo. Al silenzio. All'idea del culto ed al culto dell'infinito. Nei mondi paralleli, tra le fiamme del sole, un universo oscuro, un tempo alla gloria. Il peccato per un demone di rame, bensì la terra è fitta di arbusti uncinosi. Croci riflesse tra le piane nevose: l'Iddio tra le nubi, l'Iddio tra le terre, ed il miraggio luminoso di un vagabondo privo di orizzonti. (Argine, "Miraggio")

Que 2004 seja ainda melhor que 2003 para todos que merecem. Até lá, um presentinho. Não, não: dois. Sim, três, e chega.

dezembro 23, 2003

Ooooops

Ontem a Livros do Mal recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, mas não estávamos na cerimônia nem mandamos um vídeo explicando que estamos gravando um documentário no Cazaquistão, terra natal de minha avó materna, e que mesmo de longe agradecíamos imenso ao público pelo apoio incondicional etc. Enfim, foi mal, gente. Eu só fiquei sabendo que era o dia da entrega quando ele já tinha virado ontem, e de qualquer modo não imaginava mesmo que O Pinto ganharia alguma coisa.

Tenho uma aversão meio tosca a prêmios, menos àqueles que dão dinheiro ao vencedor. Como autor, não me inscrevo em nada. Nem no Açorianos, nem no Jabuti, nada. Não gosto, não vejo porquê. Não é algo que apele à minha vaidade de escritor, realmente. Mas eu não sou O Pinto, e como editor (ou melhor, como empresário e agitador cultural) admito ser divertido ganhar um prêmio razoavelmente importante, principalmente em uma categoria que não exige inscrição.

Ó, Marcelino, agora a gente já tem um também. Sim, é aquele do homem nu.

dezembro 19, 2003

Esperando

Não existe literatura do establishment. Lá ninguém lê, porque não sabem. No underground a escuridão é um problema. Os olhos se enchem de areia, a penumbra desconvida. E dá-lhe dancinha, sexinho, dormidinha.

Negócio é ser criatura com os pés e pernas e tronco e braços cravados na terra. A cabeça? Toda para fora, pegando um tanto de luz, com gramíneas roçando o pescoço. Sentir coceira é pecado não, ó.

dezembro 16, 2003

Vonnegut

The year was 2081, and everybody was finally equal. They weren't only equal before God and the law. They were equal every which way. Nobody was smarter than anybody else. Nobody was better looking than anybody else. Nobody was stronger or quicker than anybody else. All this equality was due to the 211th, 212th, and 213th Amendments to the Constitution, and to the unceasing vigilance of agents of the United States Handicapper General.

Harrison Bergeron. Singelo.

dezembro 15, 2003

Boniteza para todos

What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.

T. S. Eliot, The Waste Land: I, 19-30

Ainda é difícil admitir que agora eu gosto de Eliot, mas depois de reler The Waste Land pela enésima vez não tive escolha. Onde isso vai parar, querido Phlebas? Será que um dia vou ler Yeats e achar bom? Uh-oh. Tarde demais.

You are a proper fool, I said.
Well, if Albert won't leave you alone, there it is, I said,
What you get married for if you don't want children?
HURRY UP PLEASE IT'S TIME

(The Waste Land: II, 162-165)

Jolly cannoli

Só um bruto deixaria de admirar o hack value dessas versões de Pac-Man e Space Invaders feitas para Excel. Inúteis, absoluta e lindamente inúteis. Oh, comoção profunda.

Até o meu dedão

Essa caterva monomaníaca que reclama o tempo todo - a sério e com a boca cheia de esponja, vejam só - da temática escolhida por este ou aquele escritor não passa de um bando de maricas iletrados que não conseguiriam escrever dois parágrafos de ficção razoável nem que sua própria existência dependesse disso.

dezembro 14, 2003

U-Turn

Com certo orgulho eu romantizava a beleza da loucura, o mito do artista torturado e a emotividade intensa até que uma das pessoas que eu mais amava, epítome de tudo isso e de outras balelas enfeitadas, cometeu a infâmia do suicídio e me fez perceber a verdadeira dimensão de nossa estupidez: minha, dela, da humanidade.

Se comento isso agora, de modo aparentemente gratuito, é porque o cultivo de certas memórias e a reafirmação de seus lembretes nunca são excessivos. E porque mais uma vez chegou a hora de ir ao cemitério, celebrar a vida como uma renovada opção pelo não-suicídio, a razão como única medida justa e o abandono de todos os disparates como postura irrevogável. Amen.

Ilê *bocejo* Ayê *mãozinhas* Sarabandá


"Amores Perros", minha novela mexicana predileta.
Domingo é dia de testezinho.
INTP - "Architect". Greatest precision in thought and language. Can readily discern contradictions and inconsistencies. The world exists primarily to be understood. 3.3% of total population.
Take Free Myers-Briggs Personality Test
This is his Mission; to be the provider of clarity, and is often suspicious that he is the only person capable of this task. Here, the INTP risks being seen as over-critical, aloof and arrogant. On the whole, however, real arrogance is rare for INTPs for their desire is not to dominate others but simply to observe, analyse and clarify.
É nóis. Vou almoçar.

dezembro 12, 2003

My nipples explode with delight

inveja.jpg "Lanark", obra mais conhecida do escocês Alasdair Gray, figura desde 1998 na coluna de prediletos dentre os livros que ainda não li. Graças aos mais variados acidentes, nunca tinha folheado o volume. Hoje, esperando a chuva passar (não passou), encontrei a tradução brasileira e li algumas dezenas de páginas no sofá da livraria. Decisão: chega, de 2004 não passa. Enquanto o primo (aquele que consegue ser uma boa pessoa apesar de vegetariano, comunista, fã de Superman e difamador de Lord of the Rings) não me empresta a edição original, fico aqui soltando perdigotos de inveja santa sobre coisas como essas. Não é fantástico? Que sujeito desgraçado. Ah, que desânimo inspirador, que desespero bem-vindo, que liberdade para fracassar me domina quando me atiram esse tipo de guloseima no nariz, vou te contar.

dezembro 10, 2003

Schnappsie, pra ti

Compro todos, mesmo mortos
Um dicionário não-verbal é tão bem-vindo quanto respostas para perguntas aleatórias sobre o Japão, mas recomendo cautela e olhos bem fechados ao visitar o site do certame Miss Jean-Jacques Rousseau. Caso o explorador não tome cuidado, no mínimo acabará tornando-se um colecionador de tufos de cabelo com suposto valor histórico. Aconteceu comigo, confesso, e foi preciso uma boa dose de garbosas pinups vaqueiras e um instrutivo guia de autópsia para que eu voltasse ao estado usual e continuasse me perguntando com o quê meu megaencéfalo se pareceria hoje caso meus pais tivessem me submetido a uma cranioplastia infantil.

Die, puny humans

Wheeee! Dezembro acaba de ficar ainda melhor. Quanta felicidade concentrada um indivíduo pode suportar, indago ao broche de minha capa élfica e declino da resposta.

dezembro 09, 2003

Bereshith

Na primeira vez em que mentiram para mim e fiquei sabendo, pensei Posso fazer melhor, e fiz.

Letra de música

That which her slender waist confined
Shall now my joyful temples bind:
No monarch but would give his crown,
His arms might do what this has done.

It was my heaven's extremest sphere,
The pale which held that lovely deer:
My joy, my grief, my hope, my love,
Did all within this circle move!

A narrow compass! and yet there
Dwelt all that's good, and all that's fair:
Give me but what this ribband bound,
Take all the rest the sun goes round!

On a girdle, Edmund Waller

Contrição

STEPHANIA PUTA Acredito em amor, em aleatoriedade, em destino e em tudo que de tão etéreo se prove inevitável. Dia sim, dia não, rezo pelo missal dos acidentes. Também creio na razão, na prudência e na nobreza, mas é comum me enxergar em meio aos frutos tardios dos tropeços de minha ponderação. Pior, tenho fé na open society ao mesmo tempo em que deposito todas as minhas esperanças nos happy few. Bebo, mas cultuo a clareza. Sou o ingênuo mais malicioso que conheço, paciente como o Cão, suspeitíssimo confrade da Fortuna. Vivo meus dias - por bem ou por mal - no tarde demais. Não sei dançar; todo meu movimento é bélico, contra inimigo nenhum, sem raiva alguma. Sou o autômato de meu próprio planejamento anterior, do qual muito pouco suspeito. Minto por ofício mas sou incapaz de desdizer o óbvio fora dos mundos que invento, os quais, obedientes, nunca saem do papel. Ando precisando praticar a descrença, mas puxa, como é complicada.

dezembro 08, 2003

Poking the pokey

Bertrand Russell interveio com uma frase peremptória: "Wittgenstein, o senhor largue imediatamente esse atiçador!" Segundo uma das versões do encontro, a essa altura, ainda com o atiçador na mão, Wittgenstein uivou em direção a Popper: "Vamos ver, dê-me o senhor um exemplo de regra moral!" Ao que Popper respondeu: "Não se deve ameaçar os conferencistas com um atiçador." Escutaram-se algumas risadas. Mas Wittgenstein, verde de raiva, lançou o atiçador contra as brasas da lareira e abandonou o recinto batendo a porta.

Sim, filosofia é mesmo um tédio.

dezembro 06, 2003

Ô

Entender o mundo através de classes sociais é muita pobreza.

dezembro 05, 2003

Manda a educação

Ando ocupado com a fruição de minha felicidade e com um pouco de trabalho, por isso continuo devendo o post sobre games. Sairá, confiem. Ah, não esqueçam que este domingo, dia 7, é o Dia Internacional do Capitalismo. Manifestações pelo mundo todo, incluindo Porto Alegre. Não irei: tenho o Smorgasbord Anual de Daniel Galera para comparecer. Sim, vou estar de azul. Tem jogo do Grêmio.

dezembro 03, 2003

O Vigia apresenta

Nikita é bonzinho!
O que aconteceria se os EUA se tornassem comunistas no início dos anos 60? Os episódios seguintes nos trazem a biografia do velhaco Karl Marx e uma imperdível história da União Soviética, Império do Ateísmo. Eduquem-se, crianças. [via RTFM]

dezembro 02, 2003

Velha Guarda

Assim como o erudito Julio Lemos e outros escolhidos, o cabalista Milton Colonetti era um dos expoentes do infame #illuminati (1996-1999), inesquecível bastião neomaçônico-champanhota em meio à balbúrdia do IRC. Mesmo jovens - ainda bem que passou, ainda bem -, já éramos chatos demais para a caterva. O canal, é claro, foi abandonado quando chegou a hora exata, mas o Ya! Kultus nunca morrerá. Temei, tremei, tomai.

Dívida

Amanhã ou depois, um post sobre games.

Intervalo de utilidade privada: Se você, caro leitor deste blog, é a pessoa a quem emprestei o livro Aubrey Beardsley da Taschen, favor revelar-se. Estou precisando do garoto e esqueci quem foi agraciado com o empréstimo. Grato.

Procrie com moderação

Quem não acredita na importância da família deve ter nascido em meio a um arremedo, o que pode acontecer a quase qualquer um e está longe de ser pecado. O pecado mora em considerar que todas as famílias são ruins, ou pior, que a família é uma péssima instituição apenas porque a sua é um fracasso. Esse tipo de miopia costuma aparecer com certa predominância em nascidos de famílias disfuncionais, circulatoriedade que, admito, me deixa um tanto atônito.

O que eu queria dizer

Apesar das chorumelas do último post, me recuso a preconizar o anacronismo. Xô, xô, apo pantos, vade retro. Sei perder, e sei perder muito bem. Não sou daqueles sujeitos que não apenas têm dificuldade em fracassar como também adorar imputar a responsabilidade de sua incompetência aos vencedores. Ganhou, ganhou; perdeu, não chora. É deselegante, poxa. Fail better.

Acordo todas as tardes sabendo que vivo no melhor dos tempos. Por vezes me surpreendo um pouco fixado demais no que poderia ter sido se não fosse, mas isso não me impede de perceber o que é bom neste "novo mundo". Se aparento o contrário, podem apostar que não passa de charminho ou indignação residual. Sou otimista (coragem moral, coragem moral), e como tal presto mais atenção no melhor de cada cousa.

Não adianta. Apesar do assombro que me domina por conta de minha alquebrada noção de continuum, é neste melhor dos tempos que existo e é nele - e no porvir, que dele depende - que preciso operar minhas tentativas. Decifrar o passado em busca de clareza, explorar o presente como movimento do potencial, moldar o bocado de futuro que me cabe.

Em suma, é por isso que o preto continua minha cor predileta.

Autópsia de necrosados

Não é difícil perceber que a Grande Guerra do século passado, aquela que começou em 1914 e terminou em 1945, foi o tiro na cabeça da civilização ocidental (você sabe: aquela concebida pelos gregos e posta em marcha pelos romanos com uma dose de malícia latina e um certo tempero sincrético oriental).

É verdade, ela já sofrera alguns pequenos ajustes de rumo na Renascença. Nada de grave, apesar do Rafaello. A ascensão da burguesia ao fim do feudalismo trouxe alguns indícios de que as coisas não iam bem, como o surgimento do protestantismo e a abertura para aquela imensíssima patuscada conhecida como Revolução Francesa. Sim, aquela confusão sem pé nem cabeça que não serviu para nada além de institucionalizar a política do ressentimento com bobagens do tipo "todos os homens são iguais por natureza". Suspeito que este é o momento em que o Ocidente começou a perder a noção das cousas.

Depois da Grande Guerra do Século XX, fenômeno que inclui a Revolução Russa de 1917, foi inevitável o aniquilamento do legado civilizatório ocidental. Como queriam aqueles franceses que não sabiam muito bem o que queriam, o final da Grande Guerra (apesar da retórica, um embate de niilismos: viva o povo no poder, avante nacionalismo, um hurra para o estado gigantesco!) trouxe um novo Ocidente - e, por decorrência, um novo mundo -, um Ocidente que só não é tabula rasa por conta das migalhas que restaram de sua glória anterior. Como no século XIX já haviam começado a perceber os decadentistas (verdadeiros estetas são os melhores arautos de qualquer coisa), a civilização ocidental já estava moribunda. A Grande Guerra apenas decidiu qual dos vermes roeria seu cadáver inevitável.

O rabo do verme vencedor inoculou metade do "novo mundo" com um bacilo totalitarista, um pesadelo que demorou quase meio século para terminar e do qual muitos - é inacreditável - ainda não acordaram (aqui eu poderia fazer uma piadinha com Stephen Dedalus; não farei, e agradeçam). Já a cabeça, sempre mais forte, mergulhou o "novo mundo" em um devaneio de luzes e velocidade no qual se inventaram abominações como a adolescência e os carros esporte e do qual a cultura de massas e a contracultura são as pontas mais visíveis. Ambas, é inegável, tiveram seus benefícios. O elixir do Dr. Pemberton, por exemplo. A criação e popularização do computador pessoal e seus desdobramentos infinitos. A versão de Peter Jackson para "The lord of the rings". É uma boa lista, até, mas não salva o dia.

Seria excesso de entressonho imaginar o que o outro verme faria se houvesse vencido. Como escolher entre os criadores dos Einsatzgruppen ou os pais do Projeto Manhattan? Podemos aplicar o Paradigma do Zohar ("Qualquer coisa que vá contra os judeus é automaticamente contra o Ocidente", uma das poucas coisas relevantes que já percebi enquanto dormia), mas é justo conceder que poderia ser no mínimo tão bom e tão ruim quanto o que temos agora: um espectro indefinido, presa fácil para os mais variados tipos de barbarismo. O "novo mundo", que ainda não é e talvez nunca será propriamente uma civilização, não passa de um rebanho de covardes anônimos do qual é difícil escapar. O sentido heróico da existência, marca da antiga civilização ocidental na mesma medida que a importância da Razão, a valorização do indivíduo e o cultivo da beleza transcendente, deu lugar ao coletivismo disforme e insensato, à glorificação do medíocre, ao "abaixa a cabeça aí e não ouse subir nos ombros de algum gigante".

É triste, é demasiado triste. Nem o cinismo serve mais de escudo, porque já foi cooptado. Das defesas clássicas, talvez apenas a presunção ainda tenha algum potencial bélico. A presunção e os suspiros, estes últimos desde que com algum estilo. Ah, dane-se. Melhor botar a culpa nos maçons. Peço perdão ao meu falecido avô 33', mas aqueles aventais são muito, muito bregas.

dezembro 01, 2003

Em meio às releituras

Arrasado el jardín, profanados los cálices y las aras, entraron a caballo los hunos en la biblioteca monástica y rompieron los libros incomprensibles y los vituperaron y los quemaron, acaso temerosos de que las letras encubrieran blasfemias contra su dios, que era una cimitarra de hierro. (Jorge Luis Borges, "Los teólogos")

O pendor profético dos cegos vezenquando me incomoda.

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)