fevereiro 27, 2004

Beat me bones

88.0952380952381% of me is a huge nerd! How about you?

Céus, até eu fiquei impressionado. Mas ahn, o teste é fácil. Não é?

fevereiro 24, 2004

You naughty shameless girl

I can't sleep anymore... I go to bed and then that man sits in the next room and continues laughing about his own writing. And then I knock at the door, and I say, now Jim, stop writing or stop laughing! - Nora Barnacle

fevereiro 23, 2004

Rasgue em caquinhos

Sim, algum problema está impedindo que este blog seja visitado a partir de seu endereço principal. Mesmo assim, como o leitor já deve ter descoberto, há outras maneiras de chegar até aqui. Ora viva, parabéns. Tome aqui um biscoito e um copo de leite. Mais um biscoitinho? É bom. Tem gengibre. Bom leitor, bom leitor.

Atualização: Problema resolvido. Pode roer a caixa toda, ninguém faz careta. Quer a garrafa de leite? Fique. Dizem que o Reino está em festa, não escuto.

fevereiro 21, 2004

Lo!

Alerta aos confrades do Precioso: os miasmas etéricos de costume largaram um almocreve anabatista por lá. Renovem seus inventários de unguentos antes que lhe caiam os dentes pelas portas (são muitas, nem tente contar que os dedos lhe faltarão).

Corre o boato de que trata-se de uma punição pelo comportamento inadequado do Jacobino Errante, aquele celtibérico nauseabundo que anda utilizando a Santa Senda para arrastar pergaminhos e figuras-mágicas. Sptut!, eu cuspo e me lavo, ah! proteção.

Cruzo os braços.

fevereiro 13, 2004

Viva Las Vegas

a band of two we're creepy and we're kooky, mysterious and spooky

O Cartório do Registro Civil de Casamentos, Nascimentos e Óbitos da 2a Zona de Porto Alegre certifica (à fl. 169V do livro B 126 sob no49838) que no dia 13 de fevereiro de 2004 foi registrado o casamento de DANIEL PELLIZZARI, escritor, natural do estado do Amazonas, nascido aos 03 de março de 1974, e FABÍOLA CRISTÓFOLI, estudante, natural deste Estado, nascida aos 05 de abril de 1981.

Após a lépida cerimônia, os nubentes convidaram as onze (estimadas, queridas, admiradas) testemunhas para um anticlímax e voltaram para sua residência, onde passaram o resto do dia (e de suas vidas) a comer gengibre em conserva e evitar besouros.

fevereiro 12, 2004

Adágio para umbigos

Noite. Um bar vazio, com exceção de uma mesa com quatro escritores mortos e várias garrafas, também vazias.

SAMUEL BECKETT: Tá, mas alguém discorda que realismo é coisa de veado?

DANIIL KHARMS: Ô. Perder a fábula é perder a alma.

JULIO CORTÁZAR: Ele não tá falando exatamente de alma, Dandan.

FRANZ KAFKA: Sabem de uma coisa? A gente nunca mais vai sair desse bar.

KHARMS: Ih, começou. Tá na hora de parar de beber, Chico.

KAFKA: Tô falando sério, ô morto de fome.

CORTÁZAR: Ô Chico, qualé a tua? Pega leve.

KAFKA: Vocês nunca me escutam. Que se fodam. Nunca vamos sair nem dessa mesa, muito menos do bar.

CORTÁZAR: Cara, não é só porque não tem mais trago que tu tem que pirar.

KAFKA: Então tá. Não falo mais nada.

BECKETT: Não vamos sair nunca daqui, essa foi foda.

KHARMS: Falando nisso, alguém tem horas?

BECKETT: Não.

CORTÁZAR: Não uso relógio, tu sabe. Esqueço de dar corda.

KHARMS: Porra, não tem mais ninguém na merda do bar. Deve ser tarde.

CORTÁZAR: Pergunta pro cara que atende, pô.

KHARMS: Cadê ele?

BECKETT: Sei lá. Putz, tem boteco que é dureza.

KAFKA: Vocês nem percebem, né? A gente tá aqui há sei lá quantas décadas, falando merda sem parar, e vocês nem se dão conta. O dia nunca amanhece. Não tem ninguém no bar porque o bar não existe. Nem nós. A gente tá preso aqui.

CORTÁZAR: Vai à merda, Chico.

KAFKA: Ah, é? Então experimenta levantar da mesa pra ir no banheiro.

CORTÁZAR: Não tô com vontade.

KAFKA: Tenta. Quero ver.

CORTÁZAR: Não quero, cara!

KAFKA: Tu não ia conseguir. Não tem como sair dessa mesa.

CORTÁZAR: Ah, tá bom, tá bom. Azar o teu. Não vou fazer isso só pra tu ficar feliz.

KAFKA: Não faz porque não conseguiria. Eu já disse: não vamos sair daqui nunca.

KHARMS: Falando nisso, o que vocês acham dos ensaios que o Borges escreveu sobre a eternidade e o eterno retorno, esses papos todos?

BECKETT: Putz, o Borges é um mala. Fala, fala e não diz nada. Um belo fabricante de lingüiça oca, isso é o que ele é. Bosta n'água de meia-tigela. E também não sabe beber. Ainda bem que ninguém convidou ele pra sair hoje.

KHARMS: Mas foi sacanagem terem esquecido do Joyce, ele é gente fina e sabe umas musiquinhas do caralho.

BECKETT: Pô, eu até liguei, mas ele já tinha saído com o Hemingway pra beber na casa do Dylan Thomas.

CORTÁZAR: Com o Urso? Lá no Nenezão? Caralho, isso vai dar merda. Era uma boa a gente passar por lá daqui a pouco, hein?

KAFKA: Tô começando a ficar nervoso. Quem sou eu? Onde a gente tá? Quem são vocês? Quem colocou a gente aqui? Por que não conseguimos ir embora? A gente já não morreu há um tempão? Que saco isso, caras. Prestem atenção.

BECKETT: Cala a boca, Kafka. Putalamerda.

CORTÁZAR: É, Chico, fica quieto.

KAFKA: Nunca mais vamos sair daqui. Não tem como.

CORTÁZAR: Tá, Chico, tá.

BECKETT: Tu é muito impressionável, cara. Cadê teu orgulho judaico?

KHARMS: Pára de chorar, Chico. Deixa de ser ridículo.

CORTÁZAR: Opa, agora bateu uma vontade de dar um mijão.

BECKETT: Então vai no banheiro, ora.

CORTÁZAR: Daqui a pouco. Agora deve ter uma baita fila.

KAFKA: Não tem ninguém nesse bar de bosta, cara. Eu já disse. Tu não vai conseguir levantar.

KHARMS: É, a fila deve estar foda, mesmo. Vai depois.

CORTÁZAR: É, eu me agüento aqui.

BECKETT: Cacete, Kafka, pára de chorar!

Cortina.

Instruções para desenterrar gigantes

Julio Cortázar (1914-1984)Un cronopio va a abrir la puerta de calle, y al meter la mano en el bolsillo para sacar la llave lo que saca es una caja de fósforos, entonces este cronopio se aflige mucho y empieza a pensar que si en vez de la llave encuentra los fósforos, sería horrible que el mundo se hubiera desplazado de golpe, y a lo mejor si los fósforos están donde la llave, puede suceder que encuentre la billetera llena de fósforos, y la azucarera llena de dinero, y el piano lleno de azúcar, y la guía del teléfono llena de música, y el ropero lleno de abonados, y la cama llena de trajes, y los floreros llenos de sábanas, y los tranvías llenos de rosas, y los campos llenos de tranvías. Asi es que este cronopio se aflige horriblemente y corre a mirarse al espejo, pero como el espejo está algo ladeado lo que ve es el paragüero del zaguán, y sus presunciones se confirmam y estalla en sollozes, cae de rodillas y junta sus manecitas no sabe para qué. Lós famas vecinos acuden a consolarlo, y también las esperanzas, pero pasan horas antes de que el cronopio salga de su desesperación y acepte una taza de té, que mira y examina mucho antes de beber, no vaya a pasar que en vez de una taza de té sea un hormiguero o un libro de Samuel Smiles. ("La foto salió movida", in Historias de cronopios y de famas).

Hoje completa-se a primeira vintena de anos da morte do titã gentil, Julio Cortázar (1914-1984), emblema incômodo da superioridade argentina e do fato de que até comunistas conseguem ser geniais. Escreveu como um demônio tocador de alaúde e, como é notório, não parou de crescer até o dia em que morreu. As regras permitem - a quem se incomodar com seu argentinismo - alegar que o Lorde das Imensas Orelhas nasceu em Bruxelas e que na prática era tão comunista quanto hmm, bueno, isso não se pode negar, maldição profunda. É um dos únicos autores de língua espanhola que tenho paciência de ler no original, o que recomendo a qualquer um que preze seu senso de prosódia.

Dia desses o Joca Reiners Terron falou da Síndrome de Cronópio, moléstia que atacava o desmesurado Cortázar e vários outros escritores dados a absurdismos em sua ficção, o que inclui também autores de menor estatura como este que vos digita e o próprio Joquinha. Seus sintomas foram assim descritos por Francisco Porrua, editor e amigo do falecido cronópio-mor: com Cortázar aconteciam coisas estranhas o tempo todo. Supostas casualidades e manifestações do acaso que ele não considerava como meras coincidências. Toda hora lhe aconteciam coisas assim: a realidade acabava convertendo-se em eco de seus contos. Uma vez me contou que recebeu uma carta dum tal John Howell que lhe comentava, quase aterrorizado, que a ele havia sucedido exatamente o mesmo que ao John Howell de "Instruções para John Howell": haviam-no feito subir ao palco no meio duma peça de teatro e depois... Cortázar se referia a estes acontecimentos como Figuras. Assegurava que absolutamente tudo respondia a formas, a figuras que podia-se ler como se tratassem de contos ou de novelas e que, caso se conseguisse decodificá-las, permitiam adivinhar o futuro da trama de nossa vida e inclusive o que acontecia nas bordas dessa trama. De modo que nossa figura interseccionava com as figuras de outras pessoas. E o curioso é que, se houvesse alguma relação mais ou menos próxima a Cortázar, essas estranhezas começavam a acontecer com você. É, é. Deveras familiar, temo que seja.

Creio que meu xará e padrinho russky Daniil Kharms (1905-1942), autor do credo "interesso-me apenas pelo que não faz sentido algum, por aquilo que não tem nenhuma aplicação prática; interesso-me pela vida apenas em suas manifestações absurdas", talvez tenha sido a mais infeliz das vítimas da Síndrome, ainda que provavelmente a menos ilustre.

Daniil Kharms (1905-1942)Kalugin adormeceu e sonhou que estava sentado perto de alguns arbustos, por onde passava um policial. Kalugin acordou, coçou sua boca, dormiu novamente e teve outro sonho no qual estava passando por alguns arbustos e que um policial estava sentado atrás dos arbustos, onde se escondia. Kalugin acordou, pôs um jornal sob a cabeça para não molhar o travesseiro com sua baba e, mais uma vez, dormiu; e mais uma vez sonhou que estava sentado perto de alguns arbustos por onde passava um policial. Kalugin acordou, trocou o jornal, deitou e dormiu novamente. Adormecendo, teve outro sonho no qual estava passando por alguns arbustos onde se escondia um policial. Nesta altura Kalugin acordou e decidiu não dormir mais, mas imediatamente caiu no sono e teve um sonho no qual estava sentado perto de um policial por onde passavam alguns arbustos. Kalugin gritou e revirou-se na cama, mas não conseguiu acordar. Kalugin dormiu sem parar por quatro dias e quatro noites, e no quinto dia acordou tão fino que precisou usar cordas para amarrar suas botas nos pés, de modo que não escorregassem. Na padaria onde Kalugin sempre comprara pão integral, não o reconheceram e deram-lhe pão misto. Uma comissão sanitária estava passando pelos apartamentos e, ao enxergar Kalugin, decidiu que ele não apenas não era sanitário como também não servia para nada, e instruiu os zeladores a jogarem Kalugin fora junto com o lixo. Kalugin foi dobrado em dois e jogado fora como lixo. ("O sonho", a partir da tradução inglesa).

Na última vez em que foi preso em nome do Povo por atrasar o processo revolucionário ou coisa que o valha, largaram o pobre Dandan de pijama em uma solitária do hospital psiquiátrico de Leningrado e o esqueceram por lá. Acabou morrendo de fome e frio durante o cerco da cidade pelos chucrutes, há quase exatos sessenta e dois anos. Reza a lenda que, ao lembrarem de sua existência, o corpo fora totalmente devorado pelos ratos. Nada mais restava na cela além de trapos e, não é pecado imaginar, alguns pares muito obesos de ratazanas com disenteria alfabética. Três vivas para o Paizinho Stalin.

Em meu conto "Adágio para umbigos", as almas imortais de Cortázar e Kharms foram confinadas na companhia dos atmans de Samuel Beckett (1906-1989) e Frantisek Kafka (1883-1924) em um boteco (*pisca-pisca* *cutuca-cutuca*), digamos assim, quase platônico.

Por um desses acasos que assustam pela trivialidade, tal conto surgirá daqui a alguns segundos neste mesmo endereço, a apenas um post de distância. Palmas para ele.

(Ah, sim, devemos lembrar: daqui a seis meses e catorze dias cronópios, famas e esperanças do mundo todo comemorarão os 80 anos de nascimento do tio Julio Denis Cortázar. O resto do planeta, devo alertar, não existe).

fevereiro 09, 2004

O último bizantino

pavic.gif
That is happiness, that somebody is able to create something that another cannot.

Leiam aqui uma ótima entrevista com Milorad Pavic, o desgraçado, que recentemente tornou-se meu ficcionista vivo predileto. Não cultivar ídolos é a pior das fraquezas, podem anotar.

If a writer's piece of work is read by an untalented reader, it is not going to be understood. But, fortunately, we have now in the world more talented readers than talented reviewers. And more talented readers than talented authors, as well. (...) Anybody can attend a university. But it is not possible to learn in school how to compose The Magic Flute. Nobody can teach a reader how to read between the lines and through the words.

fevereiro 06, 2004

Pellizzari, Daniele

"Pecore che volano si perdono nel cielo", deste que vos digita, e "Manuale per investire i cani", de Daniel Galera, já estão à venda. Nove euros cada. Metti nel carrello!

fevereiro 04, 2004

Rancheiras

Mais triste ainda deve estar o Galera, que acaba de voltar das férias no mundo dos sem-blog. Agradeço o comentário a respeito de minha recente inclusão no lote dos neomalditos. Suspiros infinitos. Sou apenas um decadentista com senso de humor, todo mundo que lê bem o sabe.

Como nota indireta, está ali o novo site da Deus e o Diabo. Fã, sou. Mã-ã-i-ãi-iã-iii-i indeed.

Nunca é hora

Calma, calma, também não é tudo assim escuridão e morte. Calma. Não é assim? Uma vez um menininho foi colher crisântemos perto da fonte, numa manhã de sol. Crisântemos? É, esses polpudos amarelos. Perto da fonte havia um rio escuro, dentro do rio havia um bicho medonho. Aí o menininho viu um crisântemo partido, falou ai, o pobrezinho está se quebrando todo, ai caiu dentro da fonte, ai vai andando pro rio, ai ai ai caiu no rio, eu vou rezar, ele vem até a margem, aí eu pego ele. Acontece que o bicho medonho estava espiando e pensou oi, o menininho vai pegar o crisântemo, oi que bom vai cair dentro da fonte, oi ainda não caiu, oi vem andando pela margem do rio, oi que bom bom vou matar a minha fome, oi é agora, eu vou rezar e o menininho vem pra minha boca. Oi veio. Mastigo, mastigo. Mas pensa, se você é o bicho medonho, você só tem que esperar menininhos nas margens do teu rio e devorá-los, se você é o crisântemo polpudo e amarelo, você só pode esperar ser colhido, se você é o menininho, você tem que ir smepre à procura do crisântemo e correr o risco. De ser devorado. Oi ai. Não há salvação. Calma, vai chupando o teu pirulito.

Luto. Roupas coloridas por uma semana. Mais um típico começo de fevereiro, meu agosto pessoal. Deixa quieto, daqui a nove dias golpeio - golpeamos - o infame com morte confusa.

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)