março 25, 2004

No Time Toulouse

Mas e vocês, já leram o melhor post de todos os tempos? Já deram uma olhada na revista de contos capitaneada entre outros pelo mestre Assis (genuníno professor, gentleman extraordinaire)?

março 23, 2004

Patience is the great thing


A melhor coisa da literatura é que trata-se de um universo onde não existe o "ir longe demais". Por mais que você force os limites, nunca vai sair da beirada. A existência não tem solidez nem centro. Não se deixa agarrar. O único modo de conhecê-la é pelo que deixa refletir. Escrever e ler, então, é como brincar de quebra-cabeça com cacos de espelhos.

(Ou, como disse Tio Jaime de forma menos pedestre ao falar da meandartale n'O Livro Que Nunca Acaba1, assim são as cousas, mergulhadas até o nariz na ignorance that implies impression that knits knowledge that finds the nameform that whets the wits that convey contacts that sweeten sensation that drives desire that adheres to attachment that dogs death that bitches birth that entails the ensuance of existentiality2. É por aí, hein. É por aí.)

1 Finnegans Wake, a melhor obra para ler-se aos caquinhos do parto à partida caso você tenha sido agraciado com o tipo ideal de insônia.

2 Não me agradou a versão do venerável Schüler para essa passagem. Ficou (...) ignorância quimplica aimpressão que tece o conhecimento que forma a onomatoforma quinflama a mente que veicula vínculos que adoça sensações, que destina o desejo que adere a adesões que cachorreia a caveira que cadeleia a cuna que enraba o seguro da existencialidade. Não gostei; perdeu um tanto da alma. E o que aquela vírgula faz ali? Do alto ventoso de minha estultícia eu arriscaria (...) ignorância que implica impressão que cose conhecimento que encontra a nomeforma que espevita o espírito que consuma contatos que suaviza sentido que doma desejo que apanha apego que dana despedida que blasfema bereshith3 que engendra a efetivação da existencialidade), mas ah, quem se importa?

3 Se você não gosta de hebraico ou sente pruridos vertebrais ao pensar na Bíblia ou no Tanach, pode trocar por que blasfema babau que dana despertar. Não fico magoado nem nada. Mesmo. Sou um gastrópode, não não, um nematelminto magnânimo (maggots we are etc).

Fora da área

Meu telefone está desligado. É por isso que não ando respondendo emails. Aguardem, per favore. Tudo voltará ao normal em breve, quando eu estiver na minha nova casa. Será meu endereço de número dezenove em trinta anos de existência. É. Call me Heráclito, o caramujo camarada.

Fear the furry fella

Pelas barbas inexistentes de Mahavira, de onde esses italianos desencavaram uma foto minha de dez anos atrás, quando eu era um clone mais fofo do Alan Moore?

março 16, 2004

The hole on my mole is worth a dole

Antes de finalmente calar os dedos e fechar os olhos:

Deixo aqui uma versão para o inglês de uma fabulinha miúda de minha autoria, cortesia da moça chamada Ana Ban. Gostei, a palavra "swollen" me fascina.

HOLE

Just another half-hour, thought José Leonel when the alarm clock screamed at wake-up time. Just another half-hour, please. He opened his eyes when his wife mumbled Get up, it’s time. Slowly, yawning, he sat himself upright. He scratched his back, thrust his feet in his slippers and stumbled towards the bathroom. He splashed a little water on his face and started to brush his teeth carefully, remembering his last visit to the dentist. Eight cavities, one abscess and swollen gums. When he proceeded to raise his head and examine himself on the mirror, he realized he had a hole right in the middle of his forehead.

It was a perfectly round hole, shaped like a ten-cent coin. There was no blood or bruising. The hole was simply there, undisturbed, as if it had always been part of his head. It looked bottomless. He resisted the urge to thrust his finger in there, and stood still for a few seconds, staring at his reflection. He blinked once, and again, and again, and again, but the hole would not vanish. He rushed back to the bedroom and shook his wife awake – she looked busy, chewing on bits of dreams. She woke up quickly, quite startled, and rubbed her eyes with her hands. Take a look at this, he repeated, pointing at the hole, Take a look at this.
Without uttering a single word, she felt the edges of the hole with her fingers, squeezing his eyebrows. When she was done with that, she let her head drop, and sighed. José Leonel was sitting on the bed beside her, mumbling Where did it come from, my god. She would not risk a guess. They sat there in silence for quite a while; he leaned against her at the edge of the bed, before she asked What did you say? and he replied Nothing, woman. But I did hear something, she insisted, and brought her ear close to the hole.

José, there’s someone speaking in there. Before his wife had the opportunity to press her ear against the hole to better understand the words that came out from there, José Leonel stood up and made into the living room. He grabbed the cordless phone and, hastily, dialed his brother’s phone number. He was a doctor, an expert; he would most likely have an answer for that. José Leonel could hardly hear the Hello coming from the other side of the line, as the voice from the hole had started to chatter really loudly. Before hanging up, his brother did ask a few times Leonel, is that you? Leonel? Leonel? then he hung up and left Leonel and the voice talking alone together. With his hands on his head, Leonel let his body drop on the couch and tried to figure out a solution. His wife knelt down next to him and asked What? even when he had said nothing. The voice, louder and louder, continued to come out from the hole; it echoed inside his skull and prevented him from making sense of his train of thought.

When the voice paused its monologue for a few seconds, José Leonel stood up and rushed to the kitchen. His wife followed him. Together, they fumbled through a drawer; she did not even know what they were looking for. But, José, a cork? his wife halted. As he was afraid he would lose his own train of thought, he ground his teeth and mumbled Stick it in there at once, I can’t stand it any more. And this is exactly what happened: she gently fitted the cork into the hole, until there was nothing left of it but a corked line. The noise was instantly over and, once again, José Leonel was able to think without interrupting himself. He took a shower, put on his Tuesday clothes and had his breakfast. He put his arm around his wife’s shoulders and she saw him to the car and he drove to work, where everyone greeted him as if they were not aware of the cork circle right between his eyebrows.

The following Tuesday, José Leonel woke up with a hole on the left side of his chest. It was a perfectly round hole, shaped like a ten-cent coin. There was no blood or bruising. The hole was simply there, undisturbed, as if it had always been part of his chest.

[Translation of “Buraco”, from O Livro das Cousas que Acontecem (The Book of Trivial Events), Livros do Mal press, Porto Alegre, 2002]

Ando cansado pacas

Possui todos os talentos necessários a um escritor: imensa carga de leitura, informação que se expande por várias áreas do saber, criatividade alarmante, técnica irretocável.

Lembrar que alguém que eu admiro e que me ensinou muitas coisas já declarou essas coisas a meu respeito - e em público, por Jove - é quase constrangedor. O maior dos cavalheiros me atira essa luva de pelica com urtigas na cara e eu fico aqui, paralisado.

Aí eu coço a cabeça, mando a modéstia às favas e lembro que sim, quase tudo isso é mesmo verdade, e antes de começar a digitar tento fazer de conta que esqueci, que é a primeira vez novamente, que o importante é superestimar o leitor.

Estou com saudade de dar aulas. Mesmo. As experiências que tive foram ótimas. Gosto de ensinar um truque ou dois, como diriam alguns dubladores. Na verdade eu quero mesmo é adestrar os broncos a atreverem-se a ousar, e os quase-lá a entenderem a beleza nas circunvoluções convolutas de algumas filigranas narrativas - mesmo que não passem de aliterações.

Haha, so our chubby myopic bespeckled smart-arse bairn knows some big words, eh? É. Guardo no bolso para quando me entedio com as outras.

Call me Daniel. Há alguns anos, não importa quantos, resolvi que o que eu realmente queria da vida era que todas as pessoas soubessem ler como eu. Letras, mundo, tanto faz, tenho para com tudo um certo interesse particular que fica ainda melhor quando compartilhado.

Escritor é uma raça triste. No fundo, mesmo sabendo mesmo que não, insistimos em fingir que achamos que sim.

I stab at thee, repete o suicida antes de procurar no dicionário a definição de "circumpolar" e nela ficar preso para sempre, como se a aparição de um iceberg oco lhe estorvasse o sentido da visão.

This is not writing, this is sleep-deprivement-induced fingerbabbling, ou algo muito parecido ao semblante que os sonhos deveriam carregar ao saírem da adolescência.

Watch out for the bullies, the egg-headead mongrel soulsuckers ever lurking for evermore everlong everyone. They're small and they're everywhere, like born-again germs swarming unnoticed over an age-old noserag.

Credo. Vou dormir.

Balzac himself wasn't fondled enough!

P: O romance está morto?
R: Ah, sim. Definitivamente.
P: O que o substituiu?
R: Devo acreditar que foi substituído pelo que existia antes que ele fosse inventado.
P: Pela mesma coisa?
R: Pelo mesmo tipo de coisa.
P: A bicicleta está morta?

[excerto de "The Explanation", de Donald Barthelme]

Só mais unzinho

Em verdade vos digo: um dia este site vai me levar à bancarrota.

março 12, 2004

Cemitério de bezoares

[Primeiro capítulo de Carcaça, projeto de novela em que trabalhei de dezembro de 2002 a julho de 2003. Não será concluída. De suas quarenta e tantas páginas arrancarei algumas boas frases e bem, adeus.]

Por outro lado, gozávamos da mais perfeita consciência quando encontramos: de bruços, entre a entrada do quarto e a exata metade do corredor. A primeira coisa que pudemos enxergar foram os pés. O esquerdo, cuja unha do dedão vivia encravada, estava descalço e com o calcanhar esverdeado de grama úmida. A alguns bons centímetros de distância repousava o direito, também desnudo mas sem traço algum de sujeira. Quieto, um pouco torto para a esquerda e adornado com um guizo – insistência que nunca nos esforçamos para compreender – na altura do tornozelo. Este, bonito mas grosso além da conta, ao contrário das coxas, finas e levemente musculosas, terminando nas carnes das nádegas, sempre muito brancas, como de resto todo seu corpo. As covinhas, esse mistério da fé, continuavam muito aparentes, ladeando as iniciais – assim mesmo: LOSVCI – tatuadas pouco acima do cóccix, ao redor dos ângulos quase alienígenas de uma coroa de louros estilizada. Escorregamos pela vertigem da hiperlordose, engatinhamos pela lentidão das omoplatas, intuímos com auxílio da memória uma vaga geografia das clavículas e detivemo-nos na bochecha esmagada contra o assoalho de madeira, os lábios esbranquiçados entreabertos em uma careta de elegância inverossímil. O nariz. Olhos muito abertos, fixos nos pés da penteadeira, seu azul já um pouco embaçado, quase cinzento, o branco da esclerótica já opaco como uma bala de goma. Ainda não tínhamos visto o novo corte de cabelo, ainda mais curto, agora quase andrógino. Paralelos ao corpo, os braços estendiam-se simétricos para a frente, dobrados, na altura do pescoço as palmas das mãos viradas para fora, dedos como serpentes. Olhamos mais uma vez para o traseiro, as covinhas, a tatuagem, e, com um sorriso reflexo, murmuramos como da primeira vez: Lasci ogne speranza voi ch’intrate. Engraçadinha.

(Mors domada, que bobagem. Se fosse um bezoar você estaria viva, mocinha. Se fosse um bezoar, isso arruinaria toda essa cena de morrer envenenada, mastigando atropina ou beladona ou cartucheira ou raticida ou a própria língua. O fim é importante em todas as coisas? O que importa na vida é uma boa morte? Falácia. Valioso é o enquanto, o resto não passa de frontispício e colofão, se arranca e pronto. De mais a mais, tudo não passa de um punhado de coincidências.)

Que nos perdoe Deus em seu trono imberbe cercado por uma divisão de anjos carecas, mas mesmo cadáver ela ainda nos parecia uma coisinha carente precisando levar no rabo.

Saco cheio

O carro freou no cruzamento, o cavalo subiu por cima do carro, o carroceiro espancou o cavalo, a multidão linchou o carroceiro e eu, olhando, me atrasei.

março 11, 2004

Se digo prolepse, respondem saúde!

Sim, este blog anda meio abandonado. Não tive a graça de ser herdeiro, portanto estou me concentrando em gerar receita para engrossar o orçamento doméstico. Uso o tempo que me resta para ler, dormir e ser um bom marido, seguindo o exemplo imortal de Gomez Addams.

Venho também escrevendo Dedo negro com unha, meu novo livro, uma narrativa longa oficialmente subintitulada Uma farsa épica contendo as mais abstrusas, discutíveis, taumatúrgicas e desopilantes desventuras ocorridas desde o início dos tempos até os atribulados dias pentadiluvianos. O volume será publicado alguns - dois? três? - meses depois que eu terminar de escrevê-lo e que o glorioso Victor-Hvgo Borges acabar de ilustrá-lo. Não tenho como precisar quando isso acontecerá, sinto muito. Se isso lhes alegra, posso revelar que não tenho muita pressa.

À guisa de aperitivo e para combater os boatos de óbito deste bloquinho de notas, resolvi publicar um fragmento de Mamãe Gansa vai ao paraíso, primeiro arco de Dedo negro com unha. Leiam, leiam.


(...) A passo de escoteiro, você consegue chegar ao centro do lugarejo em não mais que deleitáveis vinte e alguns minutos. São duas ruas paralelas, uma cansada de seus paralelepípedos e outra do mesmo barro quase ocre e sempre seco e muito rachado da estrada onde você encontra (fazendo o caminho de volta) a placa pregada na estaca. Entre elas você imaginou que haveria uma praça, mas para seu constrangimento não há praças na cidade. Um observador mais atento em verdade nos diria que não há quase cidade na cidade, mas ele não foi convidado para este quinhão da narrativa.

Garotos de calças curtas brincam nas calçadas que alguém plantou em frente às casas, menos à beira do armazém colorido. Trata-se da única edificação a quebrar a monotonia do centro da cidade, de resto marcada apenas pela geografia acidental de algumas residências. As crianças de Baixo do Ribas têm lábios rachados e narizes que sangram a todo momento, tornando a crostinha vermelho-negra um acessório corriqueiro ao redor de suas narinas. Possuindo apenas duas ruas para seus folguedos, é nada menos que previsível que estas crianças costumem explorar os arredores da urbe. A municipalidade de Baixo do Ribas também é seca, quase ocre e coberta de pó e rachaduras, com exceção de um pequeno bosque de vegetação rasteira e do único lugar no qual os pequenos não são bem-vindos para brincar: a velha pedreira.

A velha pedreira não é uma pedreira. Não existem rochas no perímetro de Baixo do Ribas, a cidade construída, povoada e esquecida ao final de um caminho ressecado protegido pela vertigem de seus barrancos. Se você virasse à esquerda ao fim da rua de paralelepípedos e tivesse a persistência de abrir caminho por entre o bosque de arbustos espinhosos de folhas quebradiças e depois tomasse de novo a sinistra e só então seguisse em linha reta por quase metade de um dia, acabaria chegando à velha pedreira. Tivesse você a felicidade de palmilhar esta via proibida no dia correto e na hora exata, encontraria três crianças – duas garotas de vestidinho de chita, um menino pançudo – descalças, mochilas de lona nas costas e calos curiosos nas mãos, desbravando o único lugar que lhes é vetado em Baixo do Ribas, cidade que, como qualquer lugarejo sem muito contato com as massas civilizatórias, cultiva grande respeito por seus tabus e não costuma dar atenção a porquês.

Mas você não estava lá e nada viu, então leia:

Jamais alguma criança de Baixo do Ribas pisara na velha pedreira. Na verdade, há incontáveis eras nenhuma criatura de qualquer idade ou espécie encostava o pé ou a pata ou o exoesqueleto ou qualquer parte do corpo dentro de seus limites, nem ao menos para tentar entender como um lugar poderia ser chamado de pedreira em uma região carente de rochas. Até os fabulosos besouros quadricórneos, onipresentes na região, receavam chegar muito perto dela, assim como as já extintas serpentes emplumadas. A primazia dessa exploração coube a Evita, Lili e Adinho, que de posse de seus óculos de natação – para proteger os olhinhos da poeira penetrante – e de um extenso cabedal de ferramentas – para impedir qualquer intransponível surpresa – ingressam na velha pedreira e caminham com muito gosto, algum temor e considerável excitação por seu território. A velha pedreira:

Um espaço quase circular em sua perfeição, se observado de uma altura aproximada de nove mil pés. Para os que estão no solo, apenas um descampado muito amplo, destacando-se do restante de Baixo do Ribas por seu solo muito fofo e de um tom definitivamente diverso de qualquer coisa que lembre o ocre. A cada passo, as crianças deleitam-se com o tato da superfície quase movediça nos cascos de suas solas. Mesmo ainda não tendo sido convidado para esta narrativa, o observador mais atento ressurge para nos revelar que este solo é composto de minúsculos fragmentos de rocha, mais exatamente de todas – todinhas! – as rochas que um dia existiram na região. Reduzidas a minúsculos grãos de poeira macia quase esbranquiçada, foram determinada tarde reunidas em círculo pelos zelosos Gigantes de Muito Antanho, à guisa de cemitério. As três crianças abrem as banguelas quando, sem precisar espichar muito as orelhas, escutam o ruído que o solo peneirado da pedreira faz ao ser compactado pelo peso de seus corpos. Entre latido e lamento, tão áspero quanto agradável, é impossível ignorá-lo enquanto continuam a deixar pegadas macias e inegáveis atrás de si. Assim que chegam ao ponto que consiste no exato centro da circunferência da velha pedreira, Lili estica os braços para o alto de modo a reduzir a tensão em seu esqueletinho e anuncia:

Lanchinho!

(Evita, Lili e Adinho são alunos de Vera Denaus, prefeita e única professora de vernáculo & literatura de Baixo do Ribas, profissão que abraçou após aposentar-se de sua carreira de meretriz interestadual. É também a proprietária do único poço da cidade. Buraco muito profundo, foi perfurado pelo tataravô de Vera, Isaque, fundador do município. Comunica-se com um inesgotável lençol infraterrestre que é a única fonte de água potável em um raio de quarenta e dois quilômetros habitados por viv’alma. Cada um dos equipamentos empregados na perfuração do poço utilizava uma tecnologia esquecida, por puro capricho, há pouco menos de duas gerações.)

Atentos à liderança tácita de Lili, que sem grandes considerações dramáticas arranca os óculos de natação que lhe apertam a fronteira norte das bochechas, Adinho e Evita fazem o mesmo e em seguida arriam-se os três no conforto do solo. Enquanto recuperam o fôlego, quase quietos e encarando um ao outro com sorrisos bufantes, proporcionam-me um intervalo precioso que será utilizado para uma sintética mas informativa descrição de cada personagem, indo além das já citadas crostinhas de sangue ao redor das narinas – é de bom tom nunca esquecê-las.

Evita olha sempre para baixo antes de pensar em fazer qualquer outra coisa. É morena, cabelos pretos de um curto desajeitado a decorar a pele desbotada lembrando alguma matéria escura misturada com um terço de leite. Quando fala, ninguém escuta, o que resulta em que todos (ou quase) tenham a certeza de que é muito quieta. A constituição miúda, aliada à falta perceptível de qualquer hiperlordose ou bônus vertebral de semelhante quilate, não fornece grandes esperanças para um aumento pós-púbere em seus encantos pessoais. Poderia encher algumas linhas tagarelando sobre seus cambitos ou — coitada! — seus joelhos vesgos qual desgraça, mas o mais adequado parece mesmo declarar que Evita é uma menininha de um sem-gracismo inapelável. Sempre que se permite, é inteligente o bastante.

Adinho usa óculos de grau muito positivo, e lhe fascina comer pão dormido. Escorrido e desabando sobre os olhos, seu cabelo é castanho-escuro, assim como toda a extensão de sua pele que ainda não foi manchada pelo vitiligo. Os olhos, além de deficientes, são oblíquos e separados por uma distância pouco usual em sua amplitude. Está sempre sorrindo, mesmo quando chora. Gosta de imitar qualquer coisa que se mova. É apaixonado por Evita e um dos únicos que conhece sua voz, mas não consegue reagir – e, é fato, nem controlar as cócegas grudentas perto do traseiro – quando Lili o puxa pelos pulsos para trás do armazém colorido e ciciando escorrega a língua em sua boca e mastiga seus beiços para depois correr para longe, desviando aos saltos do eco das próprias risadas.

Lili, que para todos os efeitos é mesmo dona de uma voz de estridência particular, quase quadrimensional, perdeu metade de uma orelha quando tinha dois anos e três meses, arrancada por um leitão de maneira não muito agradável de descrever ou mesmo rememorar. Isto digo porque sei; ao populacho, o que mais chama a atenção em sua cabeça é a cachoeira acobreada de seus cabelos, os olhos bastante verdes e a boca pequena mas gorducha e, como o solo de Baixo do Ribas, quase ocre. Tal boca, assim como sua dona, não pára nunca de se espremer e espevitar e movimentar em coreografias tão estereotipadas quanto interessantes. Arredondada, arrebitada e curvilínea muito antes da menarca, é de fato um clichê-em-progresso de femme fatale capaz de frustrar a fome de inocência de qualquer pedófilo acidental. Mija na cama em noites de lua minguante.

Todos têm exatos nove anos – nasceram com uma diferença de minutos, de mães vizinhas: todos são filhos do mesmo pai, peculiariedade que desconhecem – e estão tentando mastigar as maçãs verdes (produto importado) que Lili trazia na mochila. O esfomeado das banguelas traçando trilhas binárias na superfície encerada das frutas é um espetáculo tão curioso aos meus olhos que cessa aqui a vontade e mesmo qualquer necessidade de ir adiante neste exercício de descrição.

Esvaziando as mochilas, cada um mostra o que trouxe de surpreendente para a aventura: um saco de estopa, uma colher inoxidável, um cantil de estanho: o saco de estopa está vazio, a colher inoxidável arranhada e o cantil de estanho cheio de água. Lili agarra um punhado do solo da pedreira e o despeja dentro do saco, e outro e mais um e assim por diante, enquanto Adinho e Evita umedecem com destreza outra razoável porção dos minúsculos grânulos e ocupam-se de dar-lhe forma humana com auxílio da colher. Ao fim da brincadeira, o homenzinho é decorado – botões, antenas, um bigode – com o que restou das maçãs. Gera certo orgulho em seus criadores e despeito em Lili, agora inútil proprietária de um saco de estopa recheado com poeira mineral. Quando, qual cadelinha em domingo de sol, Evita ajoelha-se e começa a bafejar nas narinas de sua criação, Lili chacoalha os cachos e deixa escapar uma de suas risadas:

Não se pode dar vida a algo soprando em seu nariz, tansinha!, e pisoteia o homúnculo.

Pausa de um minuto, seguido de silêncio coalhado de ações. Beiços em bico, olhos baixos, Evita cavoca o solo da velha pedreira com golpes duros de sua colher, enquanto Lili permanece de pé sobre o que restou do homúnculo, uma obscena gota de suor traçando uma descendente muito reta do alto de sua testa até seu lábio superior. Coçando a cabeça, Adinho toma o último gole do cantil enquanto ensaia seu primeiro confronto com Lili, quando a colher cavocante de Evita entra em choque com algo sólido. É um objeto vagamente cilíndrico, de extremidade afilada e não mais que nove centímetros. A todos parece uma só coisa:

Um dedo, suspira Evita, puxando o objeto da areia. É um dedo de negro, completa Adinho, ao que Lili arremata, surpresa nos sobrolhos, Tem uma unha, olha só, uma unha! A gente achou um dedo de negro com uma unha! Mal termina de falar e a mão esquerda de Evita já está agarrando o dedo de negro com uma unha e o encostando de encontro ao peito, boca escancarada escorregando sentenças que nenhum dos outros possuía o conhecimento necessário para compreender, até que calhou de repetir Confitebor tibi Domine in toto corde meo, narrabo omnia mirabilia tua* por vezes sem conta, para que se pudesse enxergar com perfeição cada palavra ao ser pronunciada.

Ganhando a atenção dos coleguinhas através de tão visual demonstração do latim, desatou a falar por meio de unidades mínimas, empilhando exinanições e querróbias e grogotós e drimônias e hafnias e escrotocinetomancias e paparices e paráfrases apócrifas, que confusão!, a menina engolira um dicionário e ninguém ali com um purgante alfabético na mochila de lona. Rosnando entredentes Não começa, Evita, não começa, Lili arrancou o dedo de negro com uma unha dos gravetinhos dáctilos de Evita, que suava cera, olhos desorbitados, pés suspensos não mais tocando o solo granulado da velha pedreira. Silenciou assim que o dedo de negro com uma unha lhe foi subtraído e permaneceu a flutuar, alheia ao oco das pancadas que Adinho, sorridente e chorando, desferia em Lili, montada sobre seu peito e contemplando extática o dedo de negro etc. (...)

* Eu te louvarei, Senhor, com todo o meu coração; contarei todas as tuas maravilhas. (N. do T.)

março 07, 2004

O simbolista tardio

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)