agosto 30, 2004

Berço esplêndido

Ainda hoje, lá pelas dez pras cinco, me dei conta que o brasileiro médio desfila a mesma mentalidade boçal de um camisa-parda das SA por volta de janeiro de 1934.

Senti medo por uns três segundos, depois passou. Eu precisava fazer meu chá.

agosto 29, 2004

Being Eduardo Pinheiro #1



Svidd Neger
de Erik Smith Meyer
(Noruega, 2003)

Ahhh. Cinema de verdade, com todo o comentário social que alguém razoavelmente lúcido pode necessitar.

Ante é um garoto negro, isolado no norte da Noruega, que foi colhido do mar, pensa ser finlandês e passa a maior parte do tempo com um penico na cabeça, colhendo cogumelos na floresta. Tem como irmão adotivo um gordo masturbador compulsivo. Vivem com a mãe viciada em palavras cruzadas, próximos de outra granja onde moram Karl, um bêbado assassino que usa vestido, e sua filha Anna, uma loira que gosta de cantar expondo seus adoráveis dentinhos tortos.

Sua vida é bisbilhotada diariamente por um norueguês disfarçado de lapão chamado Normann Hætta Bongo Utsi Saus, que sonha ir para um certo país onde todos vão ao psiquiatra. Enquanto isso, passeia pelas montanhas na companhia de sua rena e de um telefone, no qual recebe ligações da mãe. Violinistas fazem aparições esporádicas. A certa altura, um padre alcoolista surge de pedalinho por entre os fiordes.

Por algum motivo que me escapa, o filme foi banido na Austrália - isso depois que uma associação européia de direitos humanos tentou mudar seu título ("Negro Queimado"). Tudo é muito divertido e simpático, e a fotografia tem uma granulação mui agradável. A trilha sonora é do Ulver. O filme tem explosões.

Pronto, acho que já apresentei elementos suficientes para que todos queiram assistir ao filme. De nada, faço tudo isso pela Arte.

Kokkakola!

agosto 28, 2004

Going dutch

There is no such thing as just stopping over at a friend's place. It's considered rude. You have to call ahead of time and often have to make plans to meet up days or weeks (sometimes even months) in advance.

(...)

You walk into a shop and nobody asks if they can help you.

(...)

Here in Holland, the toilet and the bath are separate.

(...)

Not only that, but from about october to april the sun does NOT shine. Maybe 3-4 days out of the entire winter are sunny, otherwise it's just grey and dreary.

(...)

For a strange reason here in Holland is very normal that the aerobics lessons (or any other sport activies) are just one per week. For me one day per week is nothing.

(...)

It's very rare you ever see them arguing, just the circular logic discussions time and time again.

(...)

Making apointment is like a must in every single activities. Even with your family. It's almost impossible to do something out of impulse with Nederlander.

(...)

Os moradores de Amsterdã, na Holanda, contam agora com conselhos de vasos sanitários, que falam sobre os perigos de se fumar ou sobre como ter melhores hábitos de higiene.

Certo. Andei descobrindo que a Holanda é o paraíso na Terra. Hmmm. Acho que vou começar por aqui. Segura, Vermeer.

I refuse to become old here, the idea of having a “dutch life” in my future panics me, and the idea that my daughter will become as most of the dutch women frightens me.

Paraíso na Terra.

Momento vintage

DisorderRating
Paranoid:Low
Schizoid:Moderate
Schizotypal:Moderate
Antisocial:Moderate
Borderline:Low
Histrionic:Moderate
Narcissistic:Moderate
Avoidant:Moderate
Dependent:Low
Obsessive-Compulsive:High

-- Personality Disorder Test - Take It! --

Ou seja, tudo vai bem.

*THUMBS UP*

agosto 26, 2004

Cãozinho sem orifícios

The thing about the other kind of irony, the loveless David Letterman irony, is that it makes you totally invulnerable. You have nothing ever to lose, and therefore nothing has much of a charge to it, nothing's really that interesting. It's all just a sameness. Every day, it's just another set of things to smugly look down on. You need to figure out a way to electrify things, instead.

Boa, esta entrevista de 1999 com o Daniel Clowes. Esta de 2000 também é legal. A de 2004 eu ainda não li, mas também deve valer a pena.

You have to try to find a way to live, that's what "Ghost World" is about. Enid finds a way to get up every morning, and she always finds something to do. That's all you can hope for.

Ditto.

agosto 24, 2004

Livro a jato

A cooperativa Edições K, do combo Delfin/Benvenutti/Brock/Cazé, abriu uma temporada-relâmpago de caça a originais.

Como anunciou o Rei de Copas, é legal informar que tudo está sendo feito com uma antecedência normal para nós. Estamos com um bom cronograma, que nos permitirá chegar, finalmente, com edições 100% profissionais na Feira do Livro de Porto Alegre (inclusive com as segundas edições dos livros K de estréia, cujos custos, extremamente altos devido à nossa urgência de ter o material pronto para Paraty, serão dentro da realidade editorial). Os problemas gráficos, que alguns dos que viram e foram atentos perceberam, foram eliminados, graças à escolha de uma boa e confiável gráfica. A garantia, enfim, de uma produção profissional.

Interessado? Leia aqui.

Aos autores, dedos cruzados e uma torcida pelas pepitas. Aos responsáveis pela leitura & seleção, desejo a melhor das sortes nessa que é a mais trabalhosa, ingrata e estafante tarefa da vida editorial. À literatura, ipi ipi urra.

agosto 23, 2004

Quietinho, agora

Ah, inferno. De novo, tchê? E ainda levaram a Madonna, desta vez.

Sugiro reunir todas as bandas de norwegian black metal para colocar na vigilância desse lugar; todo mundo de corpse paint, machado e bracelete de ouriço. Em caso de tentativa de assalto, todos começam a cantar "Triumph of Death", do Hellhammer (oldschool o bastante para ninguém reclamar, creio). Melhor alarme.

(Aproveitem e leiam aqui como ficaria a mesma notícia se existisse lugar para um bom texto nessa piada conhecida como jornalismo diário).

agosto 21, 2004

agosto 19, 2004

Bom dia

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

Dylan Thomas (1914-1953)

It ain't no fun anymore

Reason, Peter Bagge e o artê: combinação perfeita.

Aproveitando a visita, leia também este aqui.

agosto 17, 2004

Webonanza

Stumble!

A propósito, este aqui é um dos melhores discos de música pop desta década, até agora. O novo do Cure também é excelente, mas (apesar do Wild Mood Swings) isso é desnecessário dizer.

agosto 16, 2004

Constatei

Não sei o que é não ter o que fazer. "Não tenho nada para fazer" é algo que não me faz sentido algum. Mal consigo entender o que isso possa significar. Me parece uma sensação totalmente alienígena, quase inverossímil. Hmm.

agosto 14, 2004

Chá em Goose Green

Eu sempre rio quando alguém cita as Malvinas. Sempre. Creio que, mais do que minha antipatia pela língua espanhola, é isso que me impede de virar argentino por algum tempo.

agosto 13, 2004

Namah

Guilherme Pilla goes Vedanta: e, para variar, o faz muito bem.

agosto 12, 2004

Fica parado aí

3AM: So how do you get things to happen?
TH: It’s all quite random. (...) It’s just a question of being open and different things opening up new things. (...) I’m sure that once you set up your pitch people just come to you.

Como é bom saber que o Tom Hodgkinson, editor da The Idler, não apenas continua vivo, mas permanece escrevendo as mesmas cousas. É um bom sujeito, que muito alegrou o início dos meus vinte anos. Descobri agora que ainda gosto do que ele escreve.

Idleness as a waste of time is a damaging notion put about by its spiritually vacant enemies. Introspection could lead to that terrible thing: a vision of the truth, a clear image of the horror of our fractured, dissonant world.

agosto 11, 2004

Cabeça na estrada, coberta de moscas

Working is stepping into the dark and making each tiny happening into a sign.

Bom este artigo sobre o inglês Denton Welch (1915-1948), mais um daqueles escritores injustamente pouco conhecidos mesmo entre os apreciadores de literatura.

Este ano tive a sorte de traduzir seu primeiro livro, "Maiden Voyage". Deverá ser publicado em breve. Leiam, é bonito pacas.

agosto 10, 2004

O horror

Por causa dela, a mastigadora de cabos, não posso mais ler ebooks ou quadrinhos digitais na cama. Agora tenho preguiça de sair de casa para consertar o cabo do notebook. Oh, miséria.

É tão belo e exótico

"Obrigado, Japão": a série que não termina nunca. [via Rodolfo]

agosto 04, 2004

Julia Pastrana


(1834-1860)

[Conhecida enquanto viveu por diversas alcunhas, sendo a mais famosa "A Mulher-Macaco", Julia foi uma pequenina índia mexicana cujo corpo era inteiramente coberto de pêlos grossos e sedosos. Seu rosto possuía proporções simiescas, suas gengivas eram hipertrofiadas e suas mandíbulas sustentavam fileiras duplas de dentes pontiagudos. Inteligente e curiosa, falava várias línguas e era fascinada por livros. Foi exibida por toda a Europa por seu marido-explorador Theodore Lent, em espetáculos nos quais cantava com sua voz mezzo-soprano e dançava usando as roupas típicas que ela mesmo costurava. Morreu dias após o difícil parto de um bebê natimorto que carregava o mesmo problema genético. Após sua morte, seu corpo e o do bebê foram mumificados por Lent, que continuou os exibindo até enlouquecer e morrer em um sanatório. Depois disso, as múmias de Julia Pastrana e de seu filho sumiram e reapareceram várias vezes, em diversos lugares diferentes. Sua localização atual é incerta.]

Quente, o dia em que morri. Pela quantidade de pessoas ao redor de meu cadáver, ainda sou amada. Foi o que eu disse, antes de morrer: Fui feliz e amada. O Sr. Lent, meu gentil marido, conversa no canto da sala com um homem de sotaque duro. Meu filho nasceu morto. Pude vê-lo antes que o levassem embora; percebi que, como eu, era uma pessoa interessante. Eu poderia fazer roupas para ele. Talvez o ensinaria a dançar. Viajaríamos juntos pelo mundo e seríamos vistos por todo tipo de gentes, e provavelmente conheceríamos outras pessoas interessantes. Eu era A Mulher Mais Interessante do Mundo.

Na beira da cama em que estou morta, avisto um homem muito branco e gordo, que carrega um pequeno cão sob o braço direito. Ele está nu. Ao contrário de mim, não tem pêlo algum, e mesmo assim sua sem parar. Seu corpo todo brilha, parecendo coberto de gordura. Também me parece interessante, com sua enorme pança composta de dobras de pele sobrepostas. Presto atenção no trajeto do suor em seus seios pendentes, com mamilos roxos e redondos. Apenas eu olho para o homem, que passa um longo tempo suando em frente à cama. Percebo agora que lhe falta um dos olhos.

O homem larga seu cão no piso do quarto. Surgem crianças de todos os lados; nenhuma delas é interessante. Meu filho, o que nasceu morto, era peludo como eu. As crianças brincam com o cãozinho do homem gordo, que continua em pé sobre uma poça de suor grosso. Quando o cachorro chega perto demais da cama adornada por meu cadáver, as crianças finalmente me enxergam. Todas, à exceção de uma, gritam e saem correndo. Pobrezinhas. Gente morta deve assustar. O garotinho que ficou no quarto se aproxima devagar, até ficar ao lado de minha cabeça. Quase abro os olhos e desmorro, mas ao contrário do que esperava não ganho beijo algum. Ele puxa com força uma das minhas costeletas e sai correndo do quarto com um tufo dos meus pêlos nas mãos.

O homem gordo agora sorri e me estende os braços. Caminho ao seu lado em direção à porta, enquanto olho para trás e vejo que o Sr. Lent e o homem do sotaque estranho apontam para meu corpo de uma maneira que não consigo entender. Ainda há muitas pessoas ao redor da cama. Sempre gostei de ser vista e amada, mas existe alguma coisa no olhar dessas pessoas que me confunde. Não era o mesmo olhar das crianças para o cãozinho. Tão bonito. Meu filho era bonito. Como eu. Ao passar pela porta encontro Rab, o anão escocês, recolhendo dinheiro de quem entra. Pergunto ao homem gordo para onde estamos indo. Ele pisca o olho que resta e não diz nada. Fico feliz em deixar meu corpo para trás. Agora será enterrado e desaparecerá. Nunca mais será olhado daquele jeito. Talvez eu não tenha sido amada pelo que fui.

Tropeço uma canção de amor em espanhol, pego uma das mãos rechonchudas e úmidas do homem gordo, sorrio e pergunto se posso renascer como um cão. É o que desejo. Renascer como um cão: ou isso, ou o nada.

[2002: primeiro capítulo de um livro que parou por aí mesmo]

agosto 03, 2004

Nae hassle tae nae cunt, likesay

The prefix 'cu' is one of the oldest word-sounds in recorded language. It is an expression quintessentially associated with femininity, and is the basis of 'cow' ('female animal'), 'queen' ('female monarch'), and, of course, 'cunt' ('female genital'). The word's second most significant influence is the Latin term 'cuneus', meaning 'wedge', from which comes 'cunnus' ('vagina'). The final 't' of 'cunt' can be traced back to Scandinavia, as in the Old Dutch 'kunte'.

Etimologia.

Ovídio Valys, bodão

Milton "Eleggua" Naso, o mais silencioso dos mortais, é meu cabalista predileto desde a primeira das incontáveis vezes em que me ajudou a salvar o mundo. Recentemente, depois de batizado a contragosto com ninkasi no canto de um matadouro, foi semear maldição no Velho Mundo: a quem interessar, palavras e imagens. Só o que ele mostrou até agora já seria suficiente para me causar um ataque de Síndrome de Stendhal.

agosto 01, 2004

Vida promíscua

Veio um monte de ravioli e uns cinco tortellini no meu pacote de capelletti. Assim não dá.

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)