outubro 20, 2004

Versânia

dois tostões e um cigarro: estando nesta condição descubro o submundo onde só os abraços são eternos; quando me redescubro, já era. os dias de descobertas estão superados.

"Livro de Catarina" era o xodó das nossas* publicações online do final dos anos 90. Quem esteve lá bem o sabe: Mari realmente é Messias, nossa pocket Hilst cabeçudinha.

Mal posso esperar amanhã à tarde; isso só pode ter ficado bom.

E ah: as guria também fizeram um ensaio a partir da peça. Ô maravilha.

Nunca foi tão bom dejavuar. Se você está em Porto Alegre, apareça.

*Nossas, velhinho. Nós, os veteranos. Aqueles que publicavam literatura na internet desde o comecinho da rede no Bananão. É, a gente mesmo. Abraço aí.

outubro 13, 2004

E segue a turnê

Nesta sexta, dia 15, eu e o Galera estaremos em Londrina, autografando nossos últimos livros e participando de um bate-papo sobre literatura e mumunhas editoriais. Não falaremos de blogs. Mais informações (local, horário etc)? Aqui, ó. Apareçam, povo bom da terra de meus queridos Bortolotto & Potumati.

outubro 11, 2004

De baixo pra cima

Desde que os genoveses entraram em Bizâncio não escrevo nada por aqui, exceto avisos, anúncios e pequenos gracejos. Gritar é um câncer, mas como em certos contextos o silêncio não passa de um tropeço resolvi tirar umas ataduras do bolso e colar alguns contos* por aqui. À guisa de "não repare", sabe? And so to bed.

* Sei lá, vai ver existe gente que nunca leu os meus livros. É, eu sei. Que idéia.

Diotima

o universo: uma malha de letras minúsculas, de proporções infinitesimais. Joca Reiners Terron, Não há nada lá

1. Sou a noiva e o noivo, e por meu esposo fui gerada.

Soterrada pelos lençóis azuis, sua avó parecia um resto encarquilhado de pernil. Estava morrendo há tempo demais, sentada pelos cantos da casa, quase imperceptível se não fosse o cheiro de merda que nem a enfermeira particular nem as fraldas geriátricas pareciam capazes de fazer sumir. Desde o primeiro derrame, estava sempre encolhida em alguma poltrona, com um terço imóvel na mão, como se fosse um holograma que de noite precisava ser carregado até o quarto. No último sábado, desabara de um só golpe no chão da sala de jantar, um pouco antes da sobremesa. Ninguém a tinha visto ficar de pé, e depois que caiu a família toda permaneceu em um semicírculo quieto ao redor de sua carne minúscula até que Lucas, de joelhos, anunciou: Tá viva, chamem uma ambulância. Do chão da sala de jantar ela seguiu direto para o leito do hospital, sem abrir os olhos até ontem, quando despertou do que os médicos consideravam uma espécie indistinta de coma e começou a falar.

2. Sou a mãe de meu pai e a irmã de meu esposo e ele é meu fruto.

Carolina!, ela sorri quando apareço na porta, Vem cá! Puxo uma cadeira e sento ao lado da cama. Ela agarra meu braço com sua mão cheia de manchas e começa a delirar: primeiro anuncia que minha mãe vai ter outro filho, depois diz que eu vou ter um filho, e agora, olhando para algum ponto atrás de meus ombros, repete sem parar que Deus vai ter um filho, Carolina, Deus vai ter um filho. Olho um tanto constrangida para a enfermeira que vem retirar o almoço e explico baixinho que Vó, a mãe morreu de câncer há muito tempo, não lembra? Eu e o Lucas éramos pequenos ainda, e aí depois a senhora veio morar com a gente. Ela desvia o olhar para o teto, cruza as mãos sobre o peito, faz um bico e diz Deus vai ter um filho, Carolina. Levanto da cadeira, passo a mão por seus cabelos finos e digo Vó, isso já aconteceu, vó. Ela agarra de novo meu braço, nunca imaginei que ainda tinha tanta força, e desata a falar. O arcanjo Gabriel apareceu para mim noite passada, Carolina. Deus vai ter um filho, e o filho novo de Deus vai nascer de mim. Pego minha bolsa pendurada na cadeira e resmungo que Conheço essa história, vó, mas tu não é mais virgem, fica quietinha e descansa, fica quietinha e descansa, e saio do quarto sofrendo o sorriso entre aquelas rugas.

3. Sou a escrava daquele que me preparou. Sou a soberana de minha prole.

Quando chega na festa, acompanhada de seu tradicional atraso de hora e meia, Carlos já está bêbado. Em cinco minutos já estão gritando quase mais alto do que o som mecânico, e quando cansa da briga ela se afasta e o deixa encostado no balcão com o copo de vodca. Dança com as amigas, fuma maconha, bebe tequila, volta a dançar. Está caminhando em direção ao banheiro quando Carlos a puxa pelo braço e diz Vambora, ela diz Não mesmo e ele a puxa pelo cabelo repetindo Vambora, porra. Arrastada até o carro, não diz uma só palavra durante todo o trajeto, nem reclama quando ele a empurra para cima do sofá, já em casa. Tenta dizer alguma coisa quando ele enfia as mãos em suas coxas por dentro da saia e puxa sua calcinha até os joelhos, mas sabe que não há mais o que fazer. Em menos de dois minutos Carlos já está novamente em pé, colocando as calças e dizendo Não sai daí que eu vou sair pra comprar fumo e quando voltar tu vai fumar comigo., mas demora demais para voltar. Quando ela acorda, perto do meio-dia, Carlos está deitado nu no tapete ao lado do sofá. Ainda com sêmen escorrendo pelo interior de suas coxas, ela acende uma das pontas que estão sobre a mesinha.

4. Mas foi ele quem me gerou antes do tempo de nascer. E ele é meu fruto no tempo devido. E dele vem meu poder.

Vou até o hospital e logo que entro no quarto ela, sem nem me olhar, diz Espia aquela mancha no teto, Carolina, é um sinal de que o Messias vai chegar. E ele vai nascer de mim. Antes mesmo de conferir, já sei que não existe mancha alguma no teto, e me sentindo bastante ridícula pergunto Como tu tá, vó, tão te tratando bem? Ela tenta de novo agarrar meu braço como da outra vez, mas eu me esquivo de suas mãos enquanto ela sorri e pergunta se eu ainda gosto de ler. Respondo que sim e ela me olha de um jeito que lembra minha mãe e diz Então lê, Carolina, está tudo nos gnósticos. A mesma enfermeira da minha outra visita chega com um prato de sopa. Os gnósticos, vó? eu quero saber, enquanto ela balança a cabeça recusando a janta. Como a senhora sabe quem são os gnósticos? eu insisto, e ela sorri e diz Foi tua mãe, Carolina. Já falei que ela está grávida de novo? Que alegria, ela vai te dar um irmãozinho!, e aí eu fecho os olhos, respiro fundo e não escuto mais nada até chegar no estacionamento e fechar a mão direita sobre as chaves no meu bolso.

5. Sou o cajado de poder de sua juventude, e ele é a vara de minha velhice.

Está saindo da faculdade quando toca o celular. É Carlos, convidando para um jantar na casa de um dos seus amigos do novo emprego. Ela acha engraçado quando é recebida por um homem de terno e máscara de diabo, que a conduz até uma sala de jantar. Continua achando graça quando encontra o namorado e outras três pessoas ajoelhados em círculo, e segura obediente uma risada quando o homem de chinelos usando uma máscara de porco que lhe cobre apenas metade do rosto manda que ela também se ajoelhe. Quando o homem de camiseta regata e máscara anti-gás aparece na porta com uma escopeta na mão, começa a não entender mais que tipo de brincadeira é aquela, afinal. Olha para Carlos, que sem corresponder o olhar aperta sua mão e sussurra Assalto, assalto. Ela não consegue mais se mexer e fixa os olhos ansiosos nas havaianas brancas do homem com a máscara de porco, que monta guarda na sala de jantar. Ficam os quatro quietos por um bom tempo, ajoelhados e olhando para o chão, enquanto o homem com a máscara de porco fuma e apaga seus cigarros no tapete. Assim que pisoteia a sétima guimba com a borracha de seus chinelos, grita Eaí? na direção da sala. Surge o homem da máscara de diabo e diz Feito, vambora. O homem com a máscara anti-gás dá uma risada catarrenta e fala Olha só que bonitinho, todo mundo ajoelhado. Parece uma igreja, diz o diabo. Acendendo outro cigarro, o porco anuncia que A missa tá acabando, ninguém se mexe nos próximos vinte minutos ou vai pro inferno. De longe, o diabo grita Fiquem com deus, jesus breve voltará, e bate a porta.

6. E o que ele desejar acontece comigo.

No hospital, antes de chegar no quarto, encontro a mesma enfermeira de sempre. Sinto muito, ela diz, como eu achei que só faziam em filmes, e fala que minha vó tá morta, que estão avisando a família, que eu preciso me acalmar. Pergunto se não nasceu algum bebê, se alguém percebeu que ela estava grávida, e ela olha para os lados e logo percebo que estou rodeada de pessoas em jalecos brancos me ouvindo gritar Vocês mataram minha vó! Seus filhos da puta! O que vocês fizeram com o nenê? Quando a enfermeira encosta as mãos em meus ombros eu cuspo na cara dela e saio de lá e pego meu carro e dirijo sem olhar para a rua e atropelo um cachorro e não tiro o pé do acelarador e faço uma curva fechada e chego na casa do Carlos e ele abre a porta e já vai perguntando O que foi, Alice, tu tá branca, e eu empurro ele pela sala até a gente cair no sofá e digo que minha vó era tão bonita quando era jovem e sei que ele nunca viu nenhuma foto da minha vó quando ela era nova e nem sabe que meu vô brigou com toda a família só pra poder casar com uma gói e digo que no hospital ela ficava me chamando de Carolina que era o nome da minha mãe e o Carlos fica me encarando com os olhos vermelhos e eu pergunto se ele já ouviu falar dos gnósticos e ele ri e diz O quê, aqueles caras que dão cursos esotéricos grátis? e aí me dá um beijo mole e enfia a mão suada no meio das minhas pernas e quer saber se minha menstruação ainda tá atrasada e pergunta se eu tô a fim de fumar maconha e eu começo a me sentir mudando de tamanho e fico tonta e saio correndo e ele vem atrás de mim gritando Alice? Alice? e eu me tranco no banheiro e começo a vomitar.

[inPELLIZZARI, Daniel et al. "Geração 90: Os transgressores". Ed. Boitempo. São Paulo, 2003]

O Cavalo-Solitario

chuif
chuif
chuif
chuif
chuif
chuif
chuif
chuif
chuif
chuif
ningem
mequer
o pobre
cavalo
passou
100
dias chorando
e morreu

FIM

[inPELLIZZARI, Daniel. "Contos de Daniel". Ed. Batman. Manaus, 1980]

Arnaldo e os moinhos

Estavam em lugar nenhum, estacionados no acostamento da estrada quase vazia. Vamos sair do carro, o outro pediu, e Arnaldo obedeceu e sentou no capô azul. Não era mais que dez e meia da manhã. Nem uma só nuvem no céu, só um azul que se espalhava por tudo e fazia uma composição com o verde pontilhado de áreas amarelas e vacas ruminando. Soprava um vento leve que não era mais que um bafo, e eles podiam sentir o calor rachando o asfalto e subindo pelas pernas. No horizonte, depois das vacas, um moinho.

Primeiro, foi o barulho. Um ruído monótono que se repetia, atrapalhando o sono. Abriu os olhos e vieram os vultos. Alguns negros, outros cinzentos, a maioria apenas sombras. O barulho continuava. Com os dedos de unhas cortadas rente acariciou a pele do rosto, áspera e suada. Sentou-se na cama enorme, esqueceu do barulho e das sombras e lembrou de si.

Arnaldo Morales. Sempre gostou do som de seu nome, da evocação quixotesca de seu sobrenome espanhol. Um homem franzino lutando contra os gigantes. Faltava-lhe um Sancho Pança, mas nenhum de seus colegas do escritório lhe parecia adequado. Na verdade, nenhum de seus conhecidos aceitaria tal cargo. Arnaldo, Don Morales de la Mancha, o cavaleiro solitário de triste figura. Lembrou que nunca lera Dom Quixote.

Aos poucos, foi deixando a cama que um dia tinha sido de seus pais. Primeiro um pé, depois o outro, com uma lentidão científica, como se estivesse experimentando a temperatura do chão. O piso do velho apartamento onde morava com sua tia Eurides lhe enojava desde criança, por razões que não entendia. Seu quarto era o único cômodo acarpetado: no resto da casa ele brincava de amarelinha. Pululava pelo mosaico de tapetes como se ainda fosse um garotinho magricela e míope, embasbacado com o tamanho dos móveis, dos quadros e de tudo.

Caminhou pelo que chamava de reta dos mortos, um corredor adornado de ambos os lados por fotos de diversos parentes seus, todos já falecidos. Acendeu a luz e deu bom-dia para seus avós, seu tio Guillermo, alguns eternos desconhecidos e finalmente para seus pais. Ele também estava na foto, ainda um bebê, e não conseguia deixar de sentir-se morto de vez em quando. Chegou à cozinha.

— Bom dia, tia Eurides - balbuciou sem muita vontade, os olhos ainda se desgrudando um do outro.

Bom dia, respondeu Eurides, muito magra, encolhida, meio cega, imortal. Acordou tão cedo hoje, completou, com sua mania de fazer perguntas disfarçadas de comentários.

— Foi o liquidificador, tia.

Ah, sorriu a tia com seus pequeninos dentes falsos.

— Você sabe que gosto de tomar minhas vitaminas quando acordo, meu filho.

Bocejando, Arnaldo fez que sim com a cabeça e procurou pelo jornal. Sentou-se à mesa e mordiscou um pão, enquanto a tia lhe enchia um copo com vitamina de mamão e leite.

— Você sabe que eu odeio mamão, tia.

Mas faz bem para os ossos, replicou ela num tom de ordem.

— Bebe.

No escritório, entre números, papéis e carimbos, Arnaldo parou por um minuto e olhou para a mesa do lado. Entre a fumaça do cachimbo escondia-se Getúlio com sua careca, sua barriga fugindo pelos cantos da camisa e a eterna marca de suor embaixo das axilas. Ei, Getúlio, chamou. O colega se sacudiu na cadeira e olhou para Arnaldo por detrás dos pequenos óculos de aros retangulares. O que é, quis saber.

— Você já leu Dom Quixote?

Getúlio largou a caneta, tirou um lenço do bolso da camisa e passou pela testa calva pontilhada de suor. Deu mais uma pitada no cachimbo (o cheiro doce que Arnaldo tanto gostava) e perguntou:

— Como assim?

— Dom Quixote. O livro, sabe? Aquele do cavaleiro.

O livro eu sei qual é, sorriu Getúlio. O que ele queria saber era o porquê da pergunta. Arnaldo trincou os dentes, olhou para o teto e ruminou um sorriso encabulado. Por fim respondeu:

— Por nada. Por nada.

Voltaram ao trabalho. O escritório estava se afogando em calor e umidade. Os grandes ventiladores de metal não funcionavam, e sua presença era incômoda. Pareciam guardiões impiedosos, representando o chefe que Arnaldo não conhecia. Esqueceu por um tempo dos papéis e ficou olhando para a ponta dos sapatos. De repente, quando uma mosca pousou em sua mão esquerda, olhou novamente para Getúlio e chamou:

— Ei, Getúlio.

O colega tirou os óculos. Diga, Arnaldo.

— Você acha que existe mesmo alguma coisa infinita?

Arnaldo não escutou o riso abafado vindo da outra mesa, onde trabalhavam Marialva e seu excesso de maquiagem. Como sempre fazia, Getúlio pediu a Arnaldo para repetir o pergunta.

— Você acha que existe mesmo alguma coisa que seja infinita?

Antes que Getúlio pudesse começar a falar, Marialva se intrometeu, sem tirar os olhos das unhas:

— Existe sim, Arnaldo. É a paciência que o Getúlio tem para as perguntas que você faz.

Todos desataram a rir. Menos Arnaldo, que riu depois, já em casa, um pouco antes de cortar os pulsos.

Arnaldus era conhecido e admirado em todo o Reino por sua bravura como soldado e dono de grandes espáduas cuja lança perfurou o crânio mole do senhor Matias. Mesmo assim, havia muita fofoca sobre seu animal de estimação, um porco do mato, e não havia quem não estranhasse sua decisão de tomar um moinho abandonado como residência.

Quando estava longe não incomodava tanto, mas o zumbido foi chegando cada vez mais perto do ouvido e não adiantava virar a cabeça para o outro lado. Era uma esquadrilha. Abriu os olhos devagar, os cílios se desgrudando aos poucos, o zumbido mais alto a cada respiração, os olhos de novo fechados. Tentou jogar longe o lençol que grudava em suas pernas, mas seu corpo estava desfeito em gelatina. Desistiu. Procurou com os ouvidos o barulho do ventilador de teto. Ajudava a esquecer dos mosquitos e tinha um efeito mágico sobre o calor, apesar de não produzir nada além de ruídos. Fome. Legiões de mosquitos zumbindo, um ventilador barulhando ao invés de ventar, o ronco sustenido de um estômago e então um grito:

— Pai!

Desta vez Arnaldo abriu os olhos com força, ignorando a preguiça dos cílios e a tontura do corpo. Não conhecia a voz, que continuava:

— Tem alguém aí? Alguém?

Eu, respondeu, sem saber mais o que dizer.

— Graças a Deus - a voz do outro estrebuchando — Graças a Deus.

Ainda confuso, passou as costas da mão para limpar o suor gelado da testa, estalou a língua que parecia uma lixa e piscou os olhos para tentar enxergar melhor seu vizinho. Do outro leito, com palavras degustadas, a voz continuou:

— Não me leve a mal, não. É que eu tenho um certo medo de ficar sozinho no escuro. Sabe como é, essas coisas de fobia.

Arnaldo disse sei sim em silêncio e o outro continuou:

— Ainda mais em hospital.

Agora já podia enxergar melhor e ficou observando com uma surpresa idiota a dança das mãos do vizinho, que não parava de gesticular enquanto falava, mesmo deitado. Enquanto movia as mãos sem parar, continuava a explicar seu medo: quando tinha uns oito anos fez uma cirurgia para corrigir um testículo recolhido. A operação não era das mais complicadas, mas o pós-operatório era um inferno.

— Além da vergonha, estava um inválido: não podia andar, porque cada uma de minhas bolas estava presa às minhas coxas por um fiozinho bem fino.

Juro que é verdade, replicou, sério, quando Arnaldo deu uma risada. E explicou melhor: não estava com o saco grudado nas pernas, podia abri-las até um limite. Mas, se tentasse andar e escorregasse, seria o fim. Enquanto convalescia, no hospital, era acompanhado de seu pai, que dormia em seu quarto todas as noites.

— Naquela época eu podia ficar em quarto individual. Agora também posso, mas não quero.

Em uma das noites, acordou com um ataque de asma, e chamou pelo pai. Nada. Nenhuma resposta. Era inverno, e lá fora uma ventania abria caminho para uma possível tempestade. O silvo do vento parecia eco do som que arrancava dos pulmões. Chamou de novo pelo pai. Silêncio. Escuridão, vendaval, falta de ar e impossibilidade de se mover se juntaram então a uma vontade crescente de ir ao banheiro.

— Mas, porra, eu não podia caminhar com o saco daquele jeito. Aí, azar. Me caguei de medo.

Literalmente.

Terminou sua história e se rendeu ao clichê de um suspiro. Arnaldo abortou a gargalhada que não teria forças para dar e perguntou o nome do vizinho de leito.

— Sancho. E ainda tem mais. Sabe como vim parar aqui?

Arnaldo ficou quieto durante alguns segundos, olhou bem para o outro e repetiu:

— Sancho?

— É. Sancho. Sabe, Dom Quixote, o livro e tal. Meu pai adorava.

Prendendo a respiração, Arnaldo apertou as palmas das mãos com as pontas dos dedos e jogou os olhos para o teto. Sancho pareceu não se importar e continuou falando.

— Você pode não acreditar, mas estou aqui porque tentei me matar.

Quando Arnaldo deu uma risada, ele também sorriu e continuou:

— O pior é que é verdade. Cortei os pulsos. E você, porque está aqui no hospital?

Arnaldo não respondeu, e Sancho também ficou quieto. O zumbido dos mosquitos voltou a ficar perceptível e um enfermeiro entrou no quarto trazendo os almoços. Quando terminou de comer, Arnaldo olhou para o vizinho, que ainda mastigava o bife de fígado, e quis saber:

— Sancho, você já leu Dom Quixote?

O outro passou as costas das mãos pela boca e respondeu:

— Não, mas vi no Sítio do Pica-Pau Amarelo quando era criança.

Já era um começo.

[inPELLIZZARI, Daniel. "Ovelhas que voam se perdem no céu". Livros do Mal. Porto Alegre, 2001]

Modo de dizer

Não estamos começando a... a... significar alguma coisa? Samuel Beckett, Fim de partida

Era uma vez uma mulher recém-chegada à menopausa, que morava em uma casa com sótão. Seu nome era Maribel, baixa e míope. Tinha orgulho de não ter filhos, mas nos dias de sol sentia falta de um marido, mesmo colecionando sete gatos. Em uma quarta-feira de cinzas, devidamente ensolarada, resolveu distrair tal falta com uma faxina completa em todos os cômodos da casa. Chegando ao sótão, sempre acompanhada pelos gatos, começou a remexer em todas as caixas e baús e cabides e pilhas de objetos sortidos, proporcionando um momento realmente intenso para a colônia de ácaros sonolentos que tomara aquele espaço como deganha. Abrindo o maior dos baús, rejuvenesceu algumas décadas ao encontrar um par de botas que comprara aos dezoito anos. Eram botas de couro avermelhado, muito compridas, com enormes plataformas. As usara pela última vez no dia em que terminou tudo com seu então noivo Francisco, um homem de sorriso magro, cabelo líqüido e fidelidade nula. Colocou as botas embaixo do sovaco e continuou a remexer no baú, até enxergar seu casaco de veludo creme. Ao estender a mão para pegá-lo, se assustou com uma aranha que surgiu embriagada do fundo do baú e a encarou com as duas patas da frente erguidas. Implacável, nossa protagonista resgatou o par de botas de sob o celibatário sovaco e bateu os enormes saltos plataforma um contra o outro, mantendo a aranha convenientemente no ponto de encontro das duas. Assim, Maria do Socorro - este era seu nome de batismo - encerrou a existência empoeirada do aracnídeo. Ao mesmo tempo, seus sete gatos desabaram ao seu redor, decididamente defuntos.

A mais fofoqueira de suas vizinhas pereceu na semana seguinte, e a partir de então Maribel tornou-se dependente do poder de exterminar tudo que fosse vivo ao seu redor com um simples bater de botas. Assim se foram dois missionários Mórmons, um cobrador, três homens que a haviam rejeitado, um juiz de futebol (ela gostava do esporte bretão) e, por engano, um escoteiro roliço que batera à sua porta tentando vender uma rifa e biscoitos amanteigados. O uniformizado infante desabou redondo na soleira de sua porta, como se fosse uma cesta cheia de legumes. Permaneceu ali até a chegada de seus colegas de patrulha, de alguns lobinhos e do chefe escoteiro, que balançava a careca suada resmungando Bem que a família avisou que ele tinha saúde frágil, mas juro que pensei que era só asma. Quando o carro do IML desapareceu na curva da rua, Maribel começou a se refestelar em melancolia, progressivamente arrependida por seu cabedal de aniquilamentos. Em uma manhã de domingo, resolveu pôr fim à sua vida. Calçou as botas com cuidado e, um esgar de felicidade no rosto, bateu uma contra a outra. Tudo ao seu redor desapareceu no intervalo entre dois pensamentos, mas ela continou viva, perdida para sempre em um limbo sem cima ou baixo, frente ou fundo, luz ou sombra.

[inPELLIZZARI, Daniel. "O livro das cousas que acontecem". Livros do Mal. Porto Alegre, 2002]

outubro 03, 2004

Uh oh

Se examinares um homem que sofre do estômago, que se queixa de dores no braço e no peito, mais precisamente na parte lateral... Diz-se então que se trata da doença wid... Deves dizer: é a morte que se aproxima dele. (Medicina Egípcia; Papiro Ebers)

Bem, pelo menos foi divertida.

 






Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
Samuel Beckett (1906-1989)